A bófia patrulha a zona, incansável,
dentro de carrinhas azuis, redes
metálicas protegendo os corpos
lá dentro, olhando para fora
em ameaças surdas. Cá fora,
nesta prisão sem paredes inventada
para tentarmos a descoberta,
a vida permanece igual e procuramos
algo novo para dizer - se bem que,
na verdade, nunca chegamos a falar,
a dizer algo que altere o estado
das coisas. Enchemos o saco do tempo
com inutilidades que, sacudidas, nada
diriam acerca de quem somos, de quem
se esconde por debaixo desta pele
silenciosa e impaciente e, quando
os esforços caem curtos, resta continuar
a tentar, a jogar este jogo invisível, correr
riscos enquanto o homem de mãos
cobertas de ouro não chega para cobrar.
Estas ruas vão terminar invariavelmente
como nos outros dias... vazias e cheias
de lixo; porque continuamos a vir aqui
quando já conhecemos o futuro? Da tarde
cinzenta resta a recordação de que a avenida,
hoje, estava fechada ao trânsito automóvel
e isso pareceu-me aterrorizante e estas vozes
de álcool e tabaco parecem morrer respirando
estas calçadas, este cimento e estas pedras
húmidas, e não se calam um segundo para
ouvir. É assim que tudo termina: muitas
palavras que ninguém nunca vai compreender.
A patrulha não para aqui, desta vez; segue
sempre procurando outros sítios melhores
para nos enfrentar.