27 janeiro 2010

O que não tem preço

A poesia é esta dádiva
Maior que a vida;
superior
ao amor ou ao ódio
particular às pessoas
e ao mundo; resistente
frágil
às pedras-palavras atiradas
por mãos rudes. Esta dádiva
desinteressada não tem preço:
é, pura, refúgio único
e último
do que não tem preço.

26 janeiro 2010

Finalmente

Com a passagem do tempo azedamos
e a beleza das memórias torna-se veneno.
Existir, este desafio ruidoso onde sobrevivemos
uns sob os outros, uns dentro de outros
e outros ainda sem saber como sair, 
arranca de nós, pouco a pouco, a vontade;
hoje, dia após dia, somos cada vez menos
nós e mais o outro, o desconhecido. Posso 
dizer hoje, sem dúvida, que o passado é
uma pele velha que sacudi, que rasguei 
nas árvores do caminho. Quem eu sou hoje,
nada deve ao que era ontem: esse está morto
finalmente.

25 janeiro 2010

BBB

Somos bons, bonitos e baratos
enquanto encontram utilidade
nos nossos trejeitos e tiques.
Quando esta se perde, somos
somente mais um que atravessou
a vida ou o corpo sem deixar
uma pista atrás de si. A esta
existência, estas pessoas
estranhas chamam "amor".

24 janeiro 2010

A zona

A bófia patrulha a zona, incansável,
dentro de carrinhas azuis, redes
metálicas protegendo os corpos
lá dentro, olhando para fora
em ameaças surdas. Cá fora,
nesta prisão sem paredes inventada
para tentarmos a descoberta,
a vida permanece igual e procuramos
algo novo para dizer - se bem que,
na verdade, nunca chegamos a falar,
a dizer algo que altere o estado
das coisas. Enchemos o saco do tempo
com inutilidades que, sacudidas, nada
diriam acerca de quem somos, de quem
se esconde por debaixo desta pele
silenciosa e impaciente e, quando
os esforços caem curtos, resta continuar
a tentar, a jogar este jogo invisível, correr
riscos enquanto o homem de mãos
cobertas de ouro não chega para cobrar.
Estas ruas vão terminar invariavelmente
como nos outros dias... vazias e cheias
de lixo; porque continuamos a vir aqui
quando já conhecemos o futuro? Da tarde
cinzenta resta a recordação de que a avenida,
hoje, estava fechada ao trânsito automóvel
e isso pareceu-me aterrorizante e estas vozes
de álcool e tabaco parecem morrer respirando
estas calçadas, este cimento e estas pedras
húmidas, e não se calam um segundo para
ouvir. É assim que tudo termina: muitas
palavras que ninguém nunca vai compreender.
A patrulha não para aqui, desta vez; segue
sempre procurando outros sítios melhores
                                     para nos enfrentar.

20 janeiro 2010

Praça D. João I

Até os bófias se comovem com os gritos
das crianças que correm, alheias
às carrinhas anti-motim; sem lei
nem ordem precipitam-se no interior
do teatro, onde lhes venderão a magia
fácil dos holofotes acéfalos,
o entretenimento cor-de-rosinha
com que adoçam o mundo corporativo.
Hoje é um dia de clemência amena
e casais sentam-se nos degraus da praça
esmagados sob as sombras, vendo
os velhos passar lentos, esquecidos
do trânsito e da poluição, o ruído
dos autocarros e do mundo - são
apenas face e toque e esperam
um sinal, um pressentimento dúctil.
Nós, os que caminhamos à volta,
andamos à procura e improvisamos
                                         uma vida.

19 janeiro 2010

Mortos, Dia dos

Ninguém compra velas
Para adorar as noções
Românticas
                ou os mortos.

Mortos
Não podem adorar os seus
                               mortos.