31 janeiro 2010

Interlúdio

A pergunta à qual ninguém consegue responder é "quem desiste primeiro de quem"? Se quem fala primeiro faz disparar os alarmes, quem se manteve em silêncio com medo do ruído é igualmente culpado do caos que se segue. Não podemos esquecer a moral e os bons costumes - afinal de contas são estes factores que vão manter o primeiro acordado à noite e o outro a dormir como um anjo.

No meu sonho

No meu sonho passas de carro
com os teus pais e eu estou lá,
olhos fechados, a ver-te passar;
por mais que tente não consigo
abri-los para te ver uma última
vez - sei que vais embora para
além do tempo e espaço que
os seres humanos conseguem
compreender. Sei que dizes adeus,
que não podes voltar, que o
tempo, este tempo, é uma corrente
demasiado forte para quem aprendeu
a nadar há tão pouco tempo. Eu estou
nu, na rua transitória que é a cama,
e sem olhos vejo-te afastar sem
esboçar uma palavra e grito e estou
mudo com os meus lábios cosidos.
Depois de compreender isto,
só me resta acordar aos gritos.

Saber mentir, sorrindo

Hoje apertei a mão a um deputado
Da nação e não me senti melhor
Ou privilegiado ou senti sequer
Tranquilidade quanto ao meu futuro.
Ele também preferia ter outra mão
de outra pessoa diferente e poderosa
para apertar: o incomodo nos gestos,
Na organização do corpo, provou que,
Acima de tudo, jornalistas e políticos
Têm de saber mentir, sorrindo.

29 janeiro 2010

António Lobo Antunes

E acordei muitas vezes sozinho,
em quartos de hotel impessoais
como expressões de psicanalistas,
unido por um telefone sem números
à amabilidade vagamente desconfiada
da recepção, a quem
a minha bagagem exígua
intrigava. Estraguei os dentes
e o estômago em casas de pasto
todas semelhantes aos restaurantes
das estações de caminhos-de-ferro,
de que a comida sabe
a carvão de coque e a lenços húmidos
do ranho já saudoso das despedidas.

Frequentei sessões da meia-noite,
de nuca arrepiada pela tosse
do solitário do banco de trás,
que lia as legendas em voz alta
para se inventar uma companhia.
E descobri, uma tarde, sentado
numa esplanada de Algés,
na borbulhosa presença de uma garrafa
de água das Pedras, que estava morto,
entende, morto
como os suicidas do viaduto que
de quando em quando cruzamos na rua,
pálidos, dignos, de jornal dobrado
no sovaco, os quais
desconhecem que faleceram e
cujos hálitos cheiram a almôndegas
com puré de batata e a trinta anos
de funcionário exemplar.

- António Lobo Antunes
in Os Cus de Judas, Dom Quixote


28 janeiro 2010

CASTIDAD, CASTIDAD

Yo nunca fui casta
regodearnos con el sexo es una hipocresía riquísima
no lo niego
pero yo nunca pude ser hipócrita yo voy al grano
directa y sin límites
sólo las sosas se las dan de interesantes
yo soy inteligente
por eso cuando quiero un hombre no lo pido con melindres
le voy p'arriba y lo asalto y me le aferro
pero por eso también he tenido poca suerte
porque ellos se cansan rápido de las puticas ladillosas.


Yo nunca fui casta
en cuanto cumplí la edad de la pubertad
cuidé mi cutis restregándome con los machos
ni un granito me salió por exceso de masturbaciones
yo a decir verdad no andaba creyendo en virginidades
yo me crié en la calle al garete
y mi sexo iba conmigo.


Yo nunca fui casta zorra sí
nadie me enseñó la malicia yo nací con ella
muy temprano empecé a latir y no masacré mi ritmo
Yo nunca fui casta ¿para qué sirve ser castos?
Si aunque sea con terror temblando de precauciones
amarnos es lo único que nos queda.


Zoé Valdés



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27 janeiro 2010

O que não tem preço

A poesia é esta dádiva
Maior que a vida;
superior
ao amor ou ao ódio
particular às pessoas
e ao mundo; resistente
frágil
às pedras-palavras atiradas
por mãos rudes. Esta dádiva
desinteressada não tem preço:
é, pura, refúgio único
e último
do que não tem preço.