06 fevereiro 2010

O Carnaval está quase aí

Preço: 2 cigarros

são esses os dois cigarros que me vais cobrar
para continuar aqui? os cigarros quentes depois
do coito sem contacto, apenas com o atrito
ritmado destes corpos abandonados sobre a cama,
um padrão escuro/claro entre lençóis e peles
sem significado para além do óbvio. Lá fora,
e longe de nós e da óbvia compreensão, votam
o orçamento ou discute-se em volta de quem vai
reter o poder; aqui, neste silêncio, apenas nos restam
os sentidos estéticos desta solidão escolhida, deste
retraimento progressivo que terminará no sono
pouco justo destes humanos simples, sedentos
de companhia e despreocupados com a continuidade
do seu rumo: afinal, e depois das contas, estamos aqui
hoje - amanhã, ninguém sabe o que vai ser do corpo
e deste espírito fraco que não renderemos a mais ninguém.

31 janeiro 2010

Esforços

Estes esforços são tão inúteis como o ar
Que respiramos; a poesia já não é
Refúgio: é onde me escondo e perco.
Agora, faz-me vir ou mata-me, não interessa 
O futuro quando o corpo que desperta
Vive no passado, na mulher perfeita 
Que já não é e no homem perfeito
Que jaz morto e enterrado, menino
De sua mãe sem guerra exterior. 
Do conflito interior nasceu esta confusão, 
Estes nós de sangue inextricáveis e
Os riscos que se correm neste abrir
Dos olhos excitados já nada vêm, apenas
A escuridão do poço dos seus sentidos 
E este calor inerte como cinza. Sem dúvida,
Andamos aqui a morrer aos poucos, longe
Dos projectos para um futuro como nós
- cada vez mais distante, cada vez mais 
                                        de outros braços.

Interlúdio

A pergunta à qual ninguém consegue responder é "quem desiste primeiro de quem"? Se quem fala primeiro faz disparar os alarmes, quem se manteve em silêncio com medo do ruído é igualmente culpado do caos que se segue. Não podemos esquecer a moral e os bons costumes - afinal de contas são estes factores que vão manter o primeiro acordado à noite e o outro a dormir como um anjo.

No meu sonho

No meu sonho passas de carro
com os teus pais e eu estou lá,
olhos fechados, a ver-te passar;
por mais que tente não consigo
abri-los para te ver uma última
vez - sei que vais embora para
além do tempo e espaço que
os seres humanos conseguem
compreender. Sei que dizes adeus,
que não podes voltar, que o
tempo, este tempo, é uma corrente
demasiado forte para quem aprendeu
a nadar há tão pouco tempo. Eu estou
nu, na rua transitória que é a cama,
e sem olhos vejo-te afastar sem
esboçar uma palavra e grito e estou
mudo com os meus lábios cosidos.
Depois de compreender isto,
só me resta acordar aos gritos.