09 fevereiro 2010

A contas com um futuro

fazem-se as contas aos mortos,
aos feridos,
às imensas cidades destruídas
e aos milhões necessários a
uma frágil reconstrução; contudo,
esquecem-se e silenciam-se os 
corpos violados por exércitos 
libertadores, as famílias destroçadas
pelas bombas incendiárias 
e as exactas cicatrizes nas crianças
que nunca o foram. Este sim, 
é o mundo moderno e matemático:
a guerra é uma ciência económica 
demasiado destrutiva para nós.

08 fevereiro 2010

O que é preciso na literatura

 "Precisamos de uma variedade linguística de gelenhite ou plástico – o tipo de literatura incendiária, escrita apenas por inadaptados, que cresceram, ainda tontos dos fumos, depois de terem derretido um pelotão de soldadinhos de plástico com um fósforo."


Christian Bök, presente neste blog

06 fevereiro 2010

O Carnaval está quase aí

Preço: 2 cigarros

são esses os dois cigarros que me vais cobrar
para continuar aqui? os cigarros quentes depois
do coito sem contacto, apenas com o atrito
ritmado destes corpos abandonados sobre a cama,
um padrão escuro/claro entre lençóis e peles
sem significado para além do óbvio. Lá fora,
e longe de nós e da óbvia compreensão, votam
o orçamento ou discute-se em volta de quem vai
reter o poder; aqui, neste silêncio, apenas nos restam
os sentidos estéticos desta solidão escolhida, deste
retraimento progressivo que terminará no sono
pouco justo destes humanos simples, sedentos
de companhia e despreocupados com a continuidade
do seu rumo: afinal, e depois das contas, estamos aqui
hoje - amanhã, ninguém sabe o que vai ser do corpo
e deste espírito fraco que não renderemos a mais ninguém.

31 janeiro 2010

Esforços

Estes esforços são tão inúteis como o ar
Que respiramos; a poesia já não é
Refúgio: é onde me escondo e perco.
Agora, faz-me vir ou mata-me, não interessa 
O futuro quando o corpo que desperta
Vive no passado, na mulher perfeita 
Que já não é e no homem perfeito
Que jaz morto e enterrado, menino
De sua mãe sem guerra exterior. 
Do conflito interior nasceu esta confusão, 
Estes nós de sangue inextricáveis e
Os riscos que se correm neste abrir
Dos olhos excitados já nada vêm, apenas
A escuridão do poço dos seus sentidos 
E este calor inerte como cinza. Sem dúvida,
Andamos aqui a morrer aos poucos, longe
Dos projectos para um futuro como nós
- cada vez mais distante, cada vez mais 
                                        de outros braços.