23 fevereiro 2010

O Segredo


Entraste na noite
pelo lado da solidão.
A ela contas que sais com eles
a eles que sais com ela.
Encaminhas o velho Renault 4
para certo lugar desabitado
da cidade.
Fizeste entrar um corpo,
acenderam um cigarro enquanto
procuras um retiro pelas sombras.
Silencias a sua voz quando quer falar-te,
com um gesto decides
forma de desejo.
Entraste num corpo
pelo lado da solidão.
Por um instante sentiste-te bem
mas não o dizes,
embora não consigas reprimir
uma carícia no vidro embaciado.
Atrás da porta que fechou deixa-te
um rastro de perfume ignóbil
que aspiras com deleite:
como o símbolo o queres
para quando queimar a claridade
da manhã.

- José Ángel Cilleruelo
(tradução de Joaquim Manuel Magalhães)
in Antologia, Averno
neste blog

12 fevereiro 2010

11 fevereiro 2010

Futuro de papel

o mesmo trabalho que te roubou a vida 
é o mesmo que te permite concretizar
sonhos e uma nova existência. é
sempre assim: perde-se o passado 
em memórias mal compreendidas
até surgir um novo futuro do papel
moeda, algo que consiga substituir 
tudo aquilo que, sem preço, se perdeu.

10 fevereiro 2010

Sob o ataque dos insectos

Se escrevo não é porque espere compreensão
ou mesmo quem me leia; certamente não espero
que tu, tu, ou mesmo tu me vejam ou sequer entendam
o desespero por detrás de cada palavra, a forma
vaga que tento imprimir a isto para explicar a confusão
nas vossas vidas, em todas, no mundo. A mim,
o que me interessa é que vocês compreendam
que, o vosso mundo, não tem sentido nem sentimento
e que eu, esta forma rude e desconexa, encontra
mais sentido para uma vida para além do vosso respirar.
Para o sagrado que vocês afirmam como certo
tenho apenas ódio e nojo e uma escarradela 
profunda. Para a vossa simpatia plastificada 
e egoísticamente umbilical tenho um dedo esticado
e um punho. Não há palavras para dizer a morte
de aluguer que nos rodeia e entrou no meu peito. 
Estes dias são iguais e igualmente cinzentos e 
progressivos no vazio que os enche sem modo
e sem advérbio que descreva o seu movimento. 
Mudamos... na verdade, morremos ambos ali, 
naquele clio, naquela franja de cimento,
na noite fracturada, osso branco neste deserto. 
Mudamos de casa e de horas,
perdemos as companhias e os dias; reencontramos
outras rotinas, nenhuma paz entre os dedos
ou nas mãos frias e naquelas noites o sexo foi frio 
como sempre. Noutras, deu a ilusão de calor 
ao corpo e pareceu negar a morte ao cadáver. 
Agora estes corpos todos tão completos
já não têm segredos porque nada contam. A eles roubei
a alma e as palavras; estas palavras e estas mãos
que já nada sabem explicar: vivem presas ao passado,
atadas a memórias. É simples o facto, o provado,
o inegável, o fantástico erro, mas não se preocupem: 
o engano faz parte do jogo e eu, o supremo sociopata, jogo-o
vezes e vezes sem conta, bem ou mal, nenhum futuro
me preocupa - excepto o meu. Morro por já não conseguir sentir
senão em palavras ou luz que enche o buraco da boca
e jorra das mãos. Compreende que eu preciso de uma cura,
de compreensão e um manual para compor o que se partiu, 
ali... aquilo, aquela coisa a que uns chamam coração e outros
razão. Sinto o corpo, os seus mortuários movimentos e silêncios
de sangue; a pressão para existir e me dissolver. O que há
para além disso? Já nem sei, reconheço a dúvida de sempre:
para onde vais? onde estiveste que não sei quem és
nem como te alcançar. Alguém me pode foder como se me amasse,
como se eu importasse, esquecendo quem sou, o que faço 
ou posso fazer? Da confiança pornográfica sei pouco: 
um dedo é tudo. Reafirmo: já não acredito em nada, 
muito menos no que posso tocar ou fingir
compreender. Posso agora, finalmente, contar
o que vejo? Sei que não, mas há enganos e drogas
e a ilusão do dinheiro simplesmente complicado e filmático 
nos planos fátuos que tentam vencer o esquema
do enriquecimento fácil: um mundo de ninguém sob nós
e entediante como este. O que é este vazio 
onde nos derramamos? O fumo está parado neste ar
onde nos conhecemos e tentamos encontrar e onde começamos
a perder tudo sob o ataque incessante dos insectos.

09 fevereiro 2010

A contas com um futuro

fazem-se as contas aos mortos,
aos feridos,
às imensas cidades destruídas
e aos milhões necessários a
uma frágil reconstrução; contudo,
esquecem-se e silenciam-se os 
corpos violados por exércitos 
libertadores, as famílias destroçadas
pelas bombas incendiárias 
e as exactas cicatrizes nas crianças
que nunca o foram. Este sim, 
é o mundo moderno e matemático:
a guerra é uma ciência económica 
demasiado destrutiva para nós.

08 fevereiro 2010

O que é preciso na literatura

 "Precisamos de uma variedade linguística de gelenhite ou plástico – o tipo de literatura incendiária, escrita apenas por inadaptados, que cresceram, ainda tontos dos fumos, depois de terem derretido um pelotão de soldadinhos de plástico com um fósforo."


Christian Bök, presente neste blog