Se escrevo não é porque espere compreensão
ou mesmo quem me leia; certamente não espero
que tu, tu, ou mesmo tu me vejam ou sequer entendam
o desespero por detrás de cada palavra, a forma
vaga que tento imprimir a isto para explicar a confusão
nas vossas vidas, em todas, no mundo. A mim,
o que me interessa é que vocês compreendam
que, o vosso mundo, não tem sentido nem sentimento
e que eu, esta forma rude e desconexa, encontra
mais sentido para uma vida para além do vosso respirar.
Para o sagrado que vocês afirmam como certo
tenho apenas ódio e nojo e uma escarradela
profunda. Para a vossa simpatia plastificada
e egoísticamente umbilical tenho um dedo esticado
e um punho. Não há palavras para dizer a morte
de aluguer que nos rodeia e entrou no meu peito.
Estes dias são iguais e igualmente cinzentos e
progressivos no vazio que os enche sem modo
e sem advérbio que descreva o seu movimento.
Mudamos... na verdade, morremos ambos ali,
naquele clio, naquela franja de cimento,
na noite fracturada, osso branco neste deserto.
Mudamos de casa e de horas,
perdemos as companhias e os dias; reencontramos
outras rotinas, nenhuma paz entre os dedos
ou nas mãos frias e naquelas noites o sexo foi frio
como sempre. Noutras, deu a ilusão de calor
ao corpo e pareceu negar a morte ao cadáver.
Agora estes corpos todos tão completos
já não têm segredos porque nada contam. A eles roubei
a alma e as palavras; estas palavras e estas mãos
que já nada sabem explicar: vivem presas ao passado,
atadas a memórias. É simples o facto, o provado,
o inegável, o fantástico erro, mas não se preocupem:
o engano faz parte do jogo e eu, o supremo sociopata, jogo-o
vezes e vezes sem conta, bem ou mal, nenhum futuro
me preocupa - excepto o meu. Morro por já não conseguir sentir
senão em palavras ou luz que enche o buraco da boca
e jorra das mãos. Compreende que eu preciso de uma cura,
de compreensão e um manual para compor o que se partiu,
ali... aquilo, aquela coisa a que uns chamam coração e outros
razão. Sinto o corpo, os seus mortuários movimentos e silêncios
de sangue; a pressão para existir e me dissolver. O que há
para além disso? Já nem sei, reconheço a dúvida de sempre:
para onde vais? onde estiveste que não sei quem és
nem como te alcançar. Alguém me pode foder como se me amasse,
como se eu importasse, esquecendo quem sou, o que faço
ou posso fazer? Da confiança pornográfica sei pouco:
um dedo é tudo. Reafirmo: já não acredito em nada,
muito menos no que posso tocar ou fingir
compreender. Posso agora, finalmente, contar
o que vejo? Sei que não, mas há enganos e drogas
e a ilusão do dinheiro simplesmente complicado e filmático
nos planos fátuos que tentam vencer o esquema
do enriquecimento fácil: um mundo de ninguém sob nós
e entediante como este. O que é este vazio
onde nos derramamos? O fumo está parado neste ar
onde nos conhecemos e tentamos encontrar e onde começamos
a perder tudo sob o ataque incessante dos insectos.