Nunca mais regressei a Almograve. Tudo
o que restou foram fotografias, outros rostos
que nos olham por detrás do tempo. Aquele
anoitecer irrepetível; nós na praia sozinhos
- que mês era? o café da vila cheio de velhos
e tu, fumando com o pijama que vestias só
para mim, no corredor da pousada. Outros
rostos olhando para nós: a minha cara
abandonada de expressão no sono, o teu rosto
com as marcas da almofada e um sorriso.
Recordo tudo nestas fotografias veladas
(a câmara era velha e deixava entrar luz): tu,
sempre foste tu, fumando à janela, pintura
de Picasso que espreita sobre o ombro; nós
desfocados depois de umas horas a beber
e os meus ciúmes dos adolescentes parvos
que ficaram no nosso piso e te olhavam.
Recordo o sexo, o teu corpo quente, os gemidos
que fazias quando ainda te fazia gemer e ansiar
por mais de mim: olharmos o sol a morrer
por detrás do mar, encaixados no corpo do outro
como um jogo de crianças. Fumavas. O som
da tua pele, o teu corpo nu a oferecer-se a mim.
Outra fotografia: meio corpo aparece na areia,
no rectângulo do enquadramento - tentei
convencer-te a fazer amor nas dunas onde
encontramos uma bala ferrugenta, queria ver-te
completa e nua debaixo daquele sol voraz; queria
sentir-te parte desta terra, parte infinita de mim,
meu sol, minha terra, meu impossível país.
Recordo a viagem: a camioneta longa que nos levou;
as mãos a percorrer o sexo na paisagem anónima;
a aventura e o nervosismo de estarmos sós, só os dois,
longe de tudo o que era familiar. Porto Côvo: casas
brancas e baixas, ruas iguais a todas as outras,
merda de cão nos passeios. Paramos aqui.
Recordo-me de te sentir longe, demasiadas cicatrizes
ainda abertas na tua pele - ainda sabia o que era sentir
outra coisa que não isto, esta confusão que ambos
desistimos de compreender. A paisagem está aqui toda.
Nestas fotos. Luminosa. O mar deve continuar a fustigar
as rochas, mas o pescador já não deixa passos atrás de si;
o clube-restaurante já não deve estar abandonado
ou então foi levado finalmente pelas águas. Nós
é que já lá não estamos. Fomos levados por outras
águas e nos esteiros ficaram as memórias a boiar,
inertes. Fui feliz nestes dias como nunca mais soube ser.
Por vezes revia-a. Sem fotografias. Aos Domingos.
Ficávamos sentados no carro, fumando, em silêncio,
escutando os rumores da chuva e da música. Olhamos
o Cabedelo, as correntes traiçoeiras: somos destas águas,
deste barro que a corrente leva e dilui finalmente no mar.