04 março 2010

Revia-a

Nunca mais regressei a Almograve. Tudo
o que restou foram fotografias, outros rostos
que nos olham por detrás do tempo. Aquele
anoitecer irrepetível; nós na praia sozinhos 
- que mês era? o café da vila cheio de velhos
e tu, fumando com o pijama que vestias só 
para mim, no corredor da pousada. Outros 
rostos olhando para nós: a minha cara 
abandonada de expressão no sono, o teu rosto 
com as marcas da almofada e um sorriso. 
Recordo tudo nestas fotografias veladas
(a câmara era velha e deixava entrar luz): tu,
sempre foste tu, fumando à janela, pintura 
de Picasso que espreita sobre o ombro; nós
desfocados depois de umas horas a beber 
e os meus ciúmes dos adolescentes parvos 
que ficaram no nosso piso e te olhavam.
Recordo o sexo, o teu corpo quente, os gemidos
que fazias quando ainda te fazia gemer e ansiar
por mais de mim: olharmos o sol a morrer 
por detrás do mar, encaixados no corpo do outro
como um jogo de crianças. Fumavas. O som 
da tua pele, o teu corpo nu a oferecer-se a mim.
Outra fotografia: meio corpo aparece na areia, 
no rectângulo do enquadramento - tentei 
convencer-te a fazer amor nas dunas onde 
encontramos uma bala ferrugenta, queria ver-te
completa e nua debaixo daquele sol voraz; queria 
sentir-te parte desta terra, parte infinita de mim, 
meu sol, minha terra, meu impossível país. 
Recordo a viagem: a camioneta longa que nos levou;
as mãos a percorrer o sexo na paisagem anónima;
a aventura e o nervosismo de estarmos sós, só os dois, 
longe de tudo o que era familiar. Porto Côvo: casas 
brancas e baixas, ruas iguais a todas as outras, 
merda de cão nos passeios. Paramos aqui. 
Recordo-me de te sentir longe, demasiadas cicatrizes
ainda abertas na tua pele - ainda sabia o que era sentir
outra coisa que não isto, esta confusão que ambos 
desistimos de compreender. A paisagem está aqui toda.
Nestas fotos. Luminosa. O mar deve continuar a fustigar
as rochas, mas o pescador já não deixa passos atrás de si; 
o clube-restaurante já não deve estar abandonado
ou então foi levado finalmente pelas águas. Nós
é que já lá não estamos. Fomos levados por outras
águas e nos esteiros ficaram as memórias a boiar,
inertes. Fui feliz nestes dias como nunca mais soube ser.
Por vezes revia-a. Sem fotografias. Aos Domingos. 
Ficávamos sentados no carro, fumando, em silêncio,
escutando os rumores da chuva e da música. Olhamos
o Cabedelo, as correntes traiçoeiras: somos destas águas, 
deste barro que a corrente leva e dilui finalmente no mar.

27 fevereiro 2010

Relações Obscuras




Trabalho realizado pelo meu sobrinho para um trabalho escolar

26 fevereiro 2010

Mais um dia

Não vejo nada para além de tédio
nas faces dos amantes. Percorrem
as ruas abraçados a nada, abraçados
ao seu frágil ego no corpo de outro.
Debaixo desta chuva, neste Inverno,
Aproxima-se o seu dia: poderão,
brevemente, entregar-se e morrer.

23 fevereiro 2010

O Segredo


Entraste na noite
pelo lado da solidão.
A ela contas que sais com eles
a eles que sais com ela.
Encaminhas o velho Renault 4
para certo lugar desabitado
da cidade.
Fizeste entrar um corpo,
acenderam um cigarro enquanto
procuras um retiro pelas sombras.
Silencias a sua voz quando quer falar-te,
com um gesto decides
forma de desejo.
Entraste num corpo
pelo lado da solidão.
Por um instante sentiste-te bem
mas não o dizes,
embora não consigas reprimir
uma carícia no vidro embaciado.
Atrás da porta que fechou deixa-te
um rastro de perfume ignóbil
que aspiras com deleite:
como o símbolo o queres
para quando queimar a claridade
da manhã.

- José Ángel Cilleruelo
(tradução de Joaquim Manuel Magalhães)
in Antologia, Averno
neste blog

12 fevereiro 2010

11 fevereiro 2010

Futuro de papel

o mesmo trabalho que te roubou a vida 
é o mesmo que te permite concretizar
sonhos e uma nova existência. é
sempre assim: perde-se o passado 
em memórias mal compreendidas
até surgir um novo futuro do papel
moeda, algo que consiga substituir 
tudo aquilo que, sem preço, se perdeu.