19 março 2010

É no abismo do teu umbigo que repousas

é no abismo do teu umbigo que repousas;
olhos, boca, vontades - tudo a ti regressa
sem que alguma vez de ti saias para tocar
ou compreender quem te rodeia. envelheço,
eu, compreendendo que quem tem pode
dar-se ao luxo da altivez, do repouso, das
viagens que apenas servem para fugir
do que não se consegue enfrentar.  apesar
de tudo, eu compreendo: atenção, carinho,
servilismo e um criado é tudo o que precisas
para ser feliz: queres coisas para encher
esse mundo vazio que percorres com palavras,
que os dedos nunca chegam a aflorar. sabes,
o valor de um pedido é compreendido, mas
também se compreende o valor da oferta 
- afinal de contas, vivemos num sistema
de procura e oferta. também, à medida da velhice
que me enche, já não espero que ninguém 
me ofereça algo ou responda à minha procura
- por isso, vive bem e não me procures mais.

10 março 2010

este ar

desta cave cheia de livros sobe o meu canto
- resta saber se alguém mais o ouve para além 
destas paredes, destas folhas silenciosas
guardas de um conhecimento que ninguém lê.
da máquina de café abandonada sobe um cheiro
a plástico, a mãos estranhas que plantaram o sol
sobre as plantas e as colheram depois sem sentir
o seu sabor quente; sem delas retirar nenhum conforto
suave e quente, nenhuma espuma para prolongar
os dias. sobre nós, sobre esta placa de cimento
da casa nova projectada por uns, construída por outros
bem pior pagos do que os primeiros, sobe o meu ódio
compreensível contra todos os burgueses e os seus
gabinetes silenciosos e cheios de artes e letras 
sem sentido absolutamente nenhum para os seus 
olhos áridos. neste ar não se respira: morre-se.

09 março 2010

Aqui me quedo

e aqui me quedo, mudo, esperando uma comunicação
qualquer que me anuncie que ainda estou vivo,
que este deserto ainda não me devorou inteiro;
um telefonema ou um mail, algo que me grite estás aqui,
vivo! estes passos incertos nestas areias áridas não sei
a que melancolia me conduzem; só por duvidar
que dias melhores poderiam existir aqui me encontro,
só por segundos intermináveis, pedra sobre pedra num túmulo
incompreensível. aqui me quedo, nesta casa que já foi
minha e onde não pertenço agora por ter passado a idade,
mudo, esperando um sinal que sei que não vai chegar nunca.

04 março 2010

Revia-a

Nunca mais regressei a Almograve. Tudo
o que restou foram fotografias, outros rostos
que nos olham por detrás do tempo. Aquele
anoitecer irrepetível; nós na praia sozinhos 
- que mês era? o café da vila cheio de velhos
e tu, fumando com o pijama que vestias só 
para mim, no corredor da pousada. Outros 
rostos olhando para nós: a minha cara 
abandonada de expressão no sono, o teu rosto 
com as marcas da almofada e um sorriso. 
Recordo tudo nestas fotografias veladas
(a câmara era velha e deixava entrar luz): tu,
sempre foste tu, fumando à janela, pintura 
de Picasso que espreita sobre o ombro; nós
desfocados depois de umas horas a beber 
e os meus ciúmes dos adolescentes parvos 
que ficaram no nosso piso e te olhavam.
Recordo o sexo, o teu corpo quente, os gemidos
que fazias quando ainda te fazia gemer e ansiar
por mais de mim: olharmos o sol a morrer 
por detrás do mar, encaixados no corpo do outro
como um jogo de crianças. Fumavas. O som 
da tua pele, o teu corpo nu a oferecer-se a mim.
Outra fotografia: meio corpo aparece na areia, 
no rectângulo do enquadramento - tentei 
convencer-te a fazer amor nas dunas onde 
encontramos uma bala ferrugenta, queria ver-te
completa e nua debaixo daquele sol voraz; queria 
sentir-te parte desta terra, parte infinita de mim, 
meu sol, minha terra, meu impossível país. 
Recordo a viagem: a camioneta longa que nos levou;
as mãos a percorrer o sexo na paisagem anónima;
a aventura e o nervosismo de estarmos sós, só os dois, 
longe de tudo o que era familiar. Porto Côvo: casas 
brancas e baixas, ruas iguais a todas as outras, 
merda de cão nos passeios. Paramos aqui. 
Recordo-me de te sentir longe, demasiadas cicatrizes
ainda abertas na tua pele - ainda sabia o que era sentir
outra coisa que não isto, esta confusão que ambos 
desistimos de compreender. A paisagem está aqui toda.
Nestas fotos. Luminosa. O mar deve continuar a fustigar
as rochas, mas o pescador já não deixa passos atrás de si; 
o clube-restaurante já não deve estar abandonado
ou então foi levado finalmente pelas águas. Nós
é que já lá não estamos. Fomos levados por outras
águas e nos esteiros ficaram as memórias a boiar,
inertes. Fui feliz nestes dias como nunca mais soube ser.
Por vezes revia-a. Sem fotografias. Aos Domingos. 
Ficávamos sentados no carro, fumando, em silêncio,
escutando os rumores da chuva e da música. Olhamos
o Cabedelo, as correntes traiçoeiras: somos destas águas, 
deste barro que a corrente leva e dilui finalmente no mar.

27 fevereiro 2010

Relações Obscuras




Trabalho realizado pelo meu sobrinho para um trabalho escolar

26 fevereiro 2010

Mais um dia

Não vejo nada para além de tédio
nas faces dos amantes. Percorrem
as ruas abraçados a nada, abraçados
ao seu frágil ego no corpo de outro.
Debaixo desta chuva, neste Inverno,
Aproxima-se o seu dia: poderão,
brevemente, entregar-se e morrer.