29 março 2010

Outro irá

se não for eu, outro irá lá partir, 
metodicamente: primeiro o corpo,
depois essa noção romântica de 
coração. resta saber com qual dos
quais se terá mais clemência - ou 
a qualidade primária dos materiais, 
a sua resistência à fricção e à pressão.

26 março 2010

A idade avança

enquanto a idade avança descubro
que estou melhor entregue a mim, 
à vertigem interminável do trabalho
e do silêncio. sem ninguém para ver
ou depender de mim, de mãos vazias
para a noite avanço apertando entre
os dedos o figurativo rosário da solidão
e as teclas plastificadas da língua, a
ligação que mantenho com quem sou.
escrevo, edito e vejo fotografias e, muito
ocasionalmente, alguma pornografia
para não esquecer a animalidade, os 
impulsos que nos empurram de uns 
para outros. de resto, não sinto nada
do meu corpo e a mente é apenas um
acumular de ideias, reservas, cansaços
e cansei-me de pedir, de pesar sentidos
e palavras, de sentir que preciso de 
perseguir algo para além de mim - sabendo
que, quando precisar mesmo, serão outra
vez as minhas mãos vazias que salvarão
quem sou, quem procuro ser. sem dúvida,
e sem mais ninguém por outro lado, nesta 
noite, na próxima e em todas as outras, é
o meu futuro o que eu construo - ou a demência.

22 março 2010

Medicina imaginária

chegas a mim por palavras, por conversas
demasiado reais que têm o teu cheiro, 
o toque suave dos teus dedos medicinais.
não sei o que procuro quando te procuro, 
mas sei que estou cansada e doente dentro;
talvez precise da tua cura - ou apenas de outra
conversa sincera que afaste o frio desta noite
e o bolor destas paredes sujas. sim, esta história
nada tem de real nem estas pessoas imaginadas
existem fora destas linhas-signos relativos.

Meses

tanto e tão pouco mudou nestes últimos meses
que até parece que ando em círculos, animal
encarcerado numa jaula de acrílico. prossigo
perseguindo a tua ideia, o teu rasto a perfume
caro, as horas vagas depois dos trabalhos
e das saídas e jantares com amigas e conhecidos
do trabalho, do mundo que está fora da minha jaula
de horas e dias. quase que nos tocamos 
da última vez, há tantos anos atrás que já quase
esqueci como foi: empurraste-me para longe, 
pensavas que estava zangado e que me vingava
no teu corpo, no teu sexo martirizado - tentava
recuperar-te, acordar o teu corpo para mim
adormecido. era tarde demais já aí? há quanto
tempo deixaram as palavras de nos servir
para explicar completas as nossas razões
ontológicas; há quanto tempo deixaram os corpos
de se reconhecer e completar? não lerás estas
palavras: os meus textos e artes morreram para ti
no noite em que tu foste para casa e eu não voltei
e antes desta morte já as conversas tinham morrido
por fora e por dentro das nossas bocas. era precário
eu, o teu interesse, pó de tinta como estas palavras
e esta língua que agora é desconhecida. não sei
que falar agora, como te dizer a solidão
e ao mesmo tempo a vontade de continuar 
encalhado nesta ilha de náufragos da madrugada,
contando os copos e corpos arrastados pelas águas
da enxurrada. o dia novo já não traz nada de novo
- apenas mais umas horas para trabalharmos.

21 março 2010

Finta de bandido

a teoria, como sempre, é fácil: 
toque na bola para lá do defesa 
e atravessar na surpresa, correndo
como um bandido que foge aos braços
e olhos da lei. executada correctamente,
e tendo boa capacidade de pernas, é eficaz
na perseguição do objectivo do golo.
acreditando nas analogias futebolísticas,
a vida pode ser vivida assim, num plano
bidimensional e verde, entre linhas brancas
que delimitam as fronteiras e os tabus. 
ainda assim há alturas em que a técnica 
não ultrapassa a perícia da defesa; 
em que a bola rola noutra direcção 
inesperada; em que os músculos, essas
cordas tensas, falham e se ouve a música
da derrota. a surpresa é sempre grande quando
a corrida não arranca e apenas nos resta
a vida normal, o dia-a-dia que se joga entre
cervejas e níveis supremos de tédio perante
tudo. não esquecer o tabaco também, 
algumas drogas e um trabalho para preencher
com dívidas e preocupações as horas de sono.

19 março 2010

É no abismo do teu umbigo que repousas

é no abismo do teu umbigo que repousas;
olhos, boca, vontades - tudo a ti regressa
sem que alguma vez de ti saias para tocar
ou compreender quem te rodeia. envelheço,
eu, compreendendo que quem tem pode
dar-se ao luxo da altivez, do repouso, das
viagens que apenas servem para fugir
do que não se consegue enfrentar.  apesar
de tudo, eu compreendo: atenção, carinho,
servilismo e um criado é tudo o que precisas
para ser feliz: queres coisas para encher
esse mundo vazio que percorres com palavras,
que os dedos nunca chegam a aflorar. sabes,
o valor de um pedido é compreendido, mas
também se compreende o valor da oferta 
- afinal de contas, vivemos num sistema
de procura e oferta. também, à medida da velhice
que me enche, já não espero que ninguém 
me ofereça algo ou responda à minha procura
- por isso, vive bem e não me procures mais.

10 março 2010

este ar

desta cave cheia de livros sobe o meu canto
- resta saber se alguém mais o ouve para além 
destas paredes, destas folhas silenciosas
guardas de um conhecimento que ninguém lê.
da máquina de café abandonada sobe um cheiro
a plástico, a mãos estranhas que plantaram o sol
sobre as plantas e as colheram depois sem sentir
o seu sabor quente; sem delas retirar nenhum conforto
suave e quente, nenhuma espuma para prolongar
os dias. sobre nós, sobre esta placa de cimento
da casa nova projectada por uns, construída por outros
bem pior pagos do que os primeiros, sobe o meu ódio
compreensível contra todos os burgueses e os seus
gabinetes silenciosos e cheios de artes e letras 
sem sentido absolutamente nenhum para os seus 
olhos áridos. neste ar não se respira: morre-se.