tanto e tão pouco mudou nestes últimos meses
que até parece que ando em círculos, animal
encarcerado numa jaula de acrílico. prossigo
perseguindo a tua ideia, o teu rasto a perfume
caro, as horas vagas depois dos trabalhos
e das saídas e jantares com amigas e conhecidos
do trabalho, do mundo que está fora da minha jaula
de horas e dias. quase que nos tocamos
da última vez, há tantos anos atrás que já quase
esqueci como foi: empurraste-me para longe,
pensavas que estava zangado e que me vingava
no teu corpo, no teu sexo martirizado - tentava
recuperar-te, acordar o teu corpo para mim
adormecido. era tarde demais já aí? há quanto
tempo deixaram as palavras de nos servir
para explicar completas as nossas razões
ontológicas; há quanto tempo deixaram os corpos
de se reconhecer e completar? não lerás estas
palavras: os meus textos e artes morreram para ti
no noite em que tu foste para casa e eu não voltei
e antes desta morte já as conversas tinham morrido
por fora e por dentro das nossas bocas. era precário
eu, o teu interesse, pó de tinta como estas palavras
e esta língua que agora é desconhecida. não sei
que falar agora, como te dizer a solidão
e ao mesmo tempo a vontade de continuar
encalhado nesta ilha de náufragos da madrugada,
contando os copos e corpos arrastados pelas águas
da enxurrada. o dia novo já não traz nada de novo
- apenas mais umas horas para trabalharmos.