06 abril 2010
04 abril 2010
Horas a olhar
Já não passo várias horas olhando o papel
que nunca responde ou me olha de volta ou
me responde. é preciso que me explique agora?
que esmiuce a ausência de mim mesmo até nada,
até ao que não compreendo em mim, ilusão de ser
completo e uno. Vivo num vazio de onde fugiram
as palavras. Estou incomunicável e o espaço
apenas serve para acumular frustrações. fim.
que nunca responde ou me olha de volta ou
me responde. é preciso que me explique agora?
que esmiuce a ausência de mim mesmo até nada,
até ao que não compreendo em mim, ilusão de ser
completo e uno. Vivo num vazio de onde fugiram
as palavras. Estou incomunicável e o espaço
apenas serve para acumular frustrações. fim.
29 março 2010
Outro irá
se não for eu, outro irá lá partir,
metodicamente: primeiro o corpo,
depois essa noção romântica de
coração. resta saber com qual dos
quais se terá mais clemência - ou
a qualidade primária dos materiais,
a sua resistência à fricção e à pressão.
26 março 2010
A idade avança
enquanto a idade avança descubro
que estou melhor entregue a mim,
à vertigem interminável do trabalho
e do silêncio. sem ninguém para ver
ou depender de mim, de mãos vazias
para a noite avanço apertando entre
os dedos o figurativo rosário da solidão
e as teclas plastificadas da língua, a
ligação que mantenho com quem sou.
escrevo, edito e vejo fotografias e, muito
ocasionalmente, alguma pornografia
para não esquecer a animalidade, os
impulsos que nos empurram de uns
para outros. de resto, não sinto nada
do meu corpo e a mente é apenas um
acumular de ideias, reservas, cansaços
e cansei-me de pedir, de pesar sentidos
e palavras, de sentir que preciso de
perseguir algo para além de mim - sabendo
que, quando precisar mesmo, serão outra
vez as minhas mãos vazias que salvarão
quem sou, quem procuro ser. sem dúvida,
e sem mais ninguém por outro lado, nesta
noite, na próxima e em todas as outras, é
o meu futuro o que eu construo - ou a demência.
22 março 2010
Medicina imaginária
chegas a mim por palavras, por conversas
demasiado reais que têm o teu cheiro,
o toque suave dos teus dedos medicinais.
não sei o que procuro quando te procuro,
mas sei que estou cansada e doente dentro;
talvez precise da tua cura - ou apenas de outra
conversa sincera que afaste o frio desta noite
e o bolor destas paredes sujas. sim, esta história
nada tem de real nem estas pessoas imaginadas
existem fora destas linhas-signos relativos.
Meses
tanto e tão pouco mudou nestes últimos meses
que até parece que ando em círculos, animal
encarcerado numa jaula de acrílico. prossigo
perseguindo a tua ideia, o teu rasto a perfume
caro, as horas vagas depois dos trabalhos
e das saídas e jantares com amigas e conhecidos
do trabalho, do mundo que está fora da minha jaula
de horas e dias. quase que nos tocamos
da última vez, há tantos anos atrás que já quase
esqueci como foi: empurraste-me para longe,
pensavas que estava zangado e que me vingava
no teu corpo, no teu sexo martirizado - tentava
recuperar-te, acordar o teu corpo para mim
adormecido. era tarde demais já aí? há quanto
tempo deixaram as palavras de nos servir
para explicar completas as nossas razões
ontológicas; há quanto tempo deixaram os corpos
de se reconhecer e completar? não lerás estas
palavras: os meus textos e artes morreram para ti
no noite em que tu foste para casa e eu não voltei
e antes desta morte já as conversas tinham morrido
por fora e por dentro das nossas bocas. era precário
eu, o teu interesse, pó de tinta como estas palavras
e esta língua que agora é desconhecida. não sei
que falar agora, como te dizer a solidão
e ao mesmo tempo a vontade de continuar
encalhado nesta ilha de náufragos da madrugada,
contando os copos e corpos arrastados pelas águas
da enxurrada. o dia novo já não traz nada de novo
- apenas mais umas horas para trabalharmos.
21 março 2010
Finta de bandido
a teoria, como sempre, é fácil:
toque na bola para lá do defesa
e atravessar na surpresa, correndo
como um bandido que foge aos braços
e olhos da lei. executada correctamente,
e tendo boa capacidade de pernas, é eficaz
na perseguição do objectivo do golo.
acreditando nas analogias futebolísticas,
a vida pode ser vivida assim, num plano
bidimensional e verde, entre linhas brancas
que delimitam as fronteiras e os tabus.
ainda assim há alturas em que a técnica
não ultrapassa a perícia da defesa;
em que a bola rola noutra direcção
inesperada; em que os músculos, essas
cordas tensas, falham e se ouve a música
da derrota. a surpresa é sempre grande quando
a corrida não arranca e apenas nos resta
a vida normal, o dia-a-dia que se joga entre
cervejas e níveis supremos de tédio perante
tudo. não esquecer o tabaco também,
algumas drogas e um trabalho para preencher
com dívidas e preocupações as horas de sono.
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