03 junho 2010

não, isto não é um regresso.

é para isto

é para isto que comemos, sob outra 
forma, esta merda; para manter 
os desejos, raivas e o fardo 
indiscritível deste corpo. ainda 
assim, apesar de todas estas
fraquezas que se estendem como
dedos de osso na pele, todos 
procuramos a nossa forma triste
e particular de responder
às imposições do sucesso.
Ser através de coisas, um peso 
que nos prende ao centro da terra,
ao centro do nosso umbigo animal;
aqui, para isto, vale tanto o sonho
infantil de uma bicicleta quitada 
com rádio faz-de-conta e fita isoladora
preta ou a exuberante virilidade 
financeira de um M6 estacionado
à porta da nossa infelicidade. 
Entretanto, enquanto o cabelo sustém
a espada da dívida, movemo-nos
de olhos abertos e mãos vazias, a boca
cheia de estranhos sons, pelas costas
do silêncio arrítmico da noite. Sabemos
finalmente que no gume do risco
há sempre um prejuízo.

04 abril 2010

Horas a olhar

Já não passo várias horas olhando o papel
que nunca responde ou me olha de volta ou
me responde.  é preciso que me explique agora?
que esmiuce a ausência de mim mesmo até nada,
até ao que não compreendo em mim, ilusão de ser
completo e uno. Vivo num vazio de onde fugiram
as palavras. Estou incomunicável e o espaço
apenas serve para acumular frustrações. fim.

29 março 2010

Outro irá

se não for eu, outro irá lá partir, 
metodicamente: primeiro o corpo,
depois essa noção romântica de 
coração. resta saber com qual dos
quais se terá mais clemência - ou 
a qualidade primária dos materiais, 
a sua resistência à fricção e à pressão.

26 março 2010

A idade avança

enquanto a idade avança descubro
que estou melhor entregue a mim, 
à vertigem interminável do trabalho
e do silêncio. sem ninguém para ver
ou depender de mim, de mãos vazias
para a noite avanço apertando entre
os dedos o figurativo rosário da solidão
e as teclas plastificadas da língua, a
ligação que mantenho com quem sou.
escrevo, edito e vejo fotografias e, muito
ocasionalmente, alguma pornografia
para não esquecer a animalidade, os 
impulsos que nos empurram de uns 
para outros. de resto, não sinto nada
do meu corpo e a mente é apenas um
acumular de ideias, reservas, cansaços
e cansei-me de pedir, de pesar sentidos
e palavras, de sentir que preciso de 
perseguir algo para além de mim - sabendo
que, quando precisar mesmo, serão outra
vez as minhas mãos vazias que salvarão
quem sou, quem procuro ser. sem dúvida,
e sem mais ninguém por outro lado, nesta 
noite, na próxima e em todas as outras, é
o meu futuro o que eu construo - ou a demência.

22 março 2010

Medicina imaginária

chegas a mim por palavras, por conversas
demasiado reais que têm o teu cheiro, 
o toque suave dos teus dedos medicinais.
não sei o que procuro quando te procuro, 
mas sei que estou cansada e doente dentro;
talvez precise da tua cura - ou apenas de outra
conversa sincera que afaste o frio desta noite
e o bolor destas paredes sujas. sim, esta história
nada tem de real nem estas pessoas imaginadas
existem fora destas linhas-signos relativos.