enquanto a idade avança descubro
que estou melhor entregue a mim,
à vertigem interminável do trabalho
e do silêncio. sem ninguém para ver
ou depender de mim, de mãos vazias
para a noite avanço apertando entre
os dedos o figurativo rosário da solidão
e as teclas plastificadas da língua, a
ligação que mantenho com quem sou.
escrevo, edito e vejo fotografias e, muito
ocasionalmente, alguma pornografia
para não esquecer a animalidade, os
impulsos que nos empurram de uns
para outros. de resto, não sinto nada
do meu corpo e a mente é apenas um
acumular de ideias, reservas, cansaços
e cansei-me de pedir, de pesar sentidos
e palavras, de sentir que preciso de
perseguir algo para além de mim - sabendo
que, quando precisar mesmo, serão outra
vez as minhas mãos vazias que salvarão
quem sou, quem procuro ser. sem dúvida,
e sem mais ninguém por outro lado, nesta
noite, na próxima e em todas as outras, é
o meu futuro o que eu construo - ou a demência.