17 julho 2010

15 julho 2010

Final da tarde

Infância na Praça dos Poveiros

da mesma forma que brincavam 
com os bonecos da sua infância,
rápida, brincam agora com filhos
e netos - deixam-nos ali pousados,
adiados nos carrinhos, esperando
um pouco mais de tempo, um pouco
mais de atenção, um pouco mais
de interacção com uma vida, coisa
sempre incompreendida. vieste 
para ser visto, não ouvido, por isso,
agita-te silenciosamente enquanto
te tentas libertar do abraço acolchoado
e seguro da tua prisão plastificada.

14 junho 2010

Negócio Dominical

as putas nesta rua são tristes
enquanto olham os carros 
que não param ao lado, 
assustados pelas cicatrizes 
e outras marcas da velhice 
precoce e inconsequente:
este cenário todos eles podem
encontrar em suas casas - não
vão pagar para montar esta fantasia.

03 junho 2010

não, isto não é um regresso.

é para isto

é para isto que comemos, sob outra 
forma, esta merda; para manter 
os desejos, raivas e o fardo 
indiscritível deste corpo. ainda 
assim, apesar de todas estas
fraquezas que se estendem como
dedos de osso na pele, todos 
procuramos a nossa forma triste
e particular de responder
às imposições do sucesso.
Ser através de coisas, um peso 
que nos prende ao centro da terra,
ao centro do nosso umbigo animal;
aqui, para isto, vale tanto o sonho
infantil de uma bicicleta quitada 
com rádio faz-de-conta e fita isoladora
preta ou a exuberante virilidade 
financeira de um M6 estacionado
à porta da nossa infelicidade. 
Entretanto, enquanto o cabelo sustém
a espada da dívida, movemo-nos
de olhos abertos e mãos vazias, a boca
cheia de estranhos sons, pelas costas
do silêncio arrítmico da noite. Sabemos
finalmente que no gume do risco
há sempre um prejuízo.