23 agosto 2010
Gil Scott Heron - Casa da Música 2010
Gil Scott Heron @ Casa da Música Porto 15-05-10 from hug the dj on Vimeo.
um dos concertos mais profundos a que assisti
22 agosto 2010
Amor
de pernas cruzadas sob a mesa do café
falavam displicentemente sobre crenças,
cruzando e descruzando os braços, as mãos
falando mais do que o que as palavras dizem.
entre o calor que se escapa e os corpos
que deixam de se reconhecer e os
silêncios que pontuam palavras e mãos,
as bocas diziam (depois de sorverem mais
um golo de ar e de café) que o amor existe,
que é possível gostar de alguém, mesmo
que não se fale do que somos por dentro
e que a paixão seja uma fome voraz
que nos quer afogar na carne.
eu ouvia os argumentos, ouvia a voz baixa,
que necessitava de afirmar a sua magra
superioridade, usar todos os argumentos
dos segredos confiados para me trinchar
as arestas e me transformar em algo redondo
e básico como a sua opinião. apesar do que
tu - e tu - dizes o amor é este negócio práctico:
"lembra-te! esquece! haverá outro corpo para tapar
o vazio deixado por outro que outro deixou para trás."
e há quem acredite que há alguma partilha nisto.
20 agosto 2010
Virtute
podes pensar que não, mas ainda é o teu nome
que eu trago debaixo da língua; quem tu és
ainda o trago nas mãos e procuro consciente
da terrível inutilidade de tudo. morremos já,
essa é a verdade, naquela noite de nascimento.
sinto-te a medida das coisas, à medida do meu
corpo e do meu jeito. e por vezes queremos um
momento de paz; um sítio onde encostar a cabeça
e fechar os olhos, negar o mundo que nos entra
pelos sentidos dentro, renegar esta existência
que não compreendemos, estes dias de raiva,
estes dias de nada, em que somos com a força
que nasce de sabermos que só isso podemos
com a frágil consistência destes músculos,
o fraco entendimento deste corpo incompreendido.
esta morte psicológica que nos entra cabeça
dentro, estes retinidos dos telemóveis, o brilho
constante da televisão, o som da vida fora
da janela, do outro lado da parede, sempre longe,
sempre longe demais para o alcançar agora.
é esta a virtude do mundo: saber o que temos,
o que devemos fazer e prosseguir em direcção
a mais esse abismo, mais um desafio para nos
esquecermos, mais um lugar onde desaparecer
e deixar de ser quem sempre somos
quando a solidão nos encontra
sem nada,
sem ninguém
onde nos apoiar
e nos dar força.
18 agosto 2010
Vinteoito
não te comovas porque eu sou
um traidor de todas as horas,
de todas as oportunidades, todos
os dias dividido entre o lembrar-te
e precisar de alguém que aqueça
este corpo para continuar
a recordar-te. sonho com sexo,
calor, saliva - as tuas mãos colhendo
as flores negras do meu cancro,
repelindo os insectos e os necrófagos.
vinte e oito,
não o esperava. muito menos aqui,
com esta vida que não sei como caiu
nas minhas mãos, com todas estas
escolhas e mortes que abraço. ainda
jovem sem o ser muito, calcinei o corpo
com sal e fumo e álcool até esquecer
quem sou, quem fui, quem queria ter sido
nas experiências ocultas na inconsequência
dos dias repetidos todos os novos dias
enquanto ainda conseguimos acordar.
quem somos a cada dia que passa?
nos dois dias da nossa vida somos
a permanência de uma ilusão nos olhos
de quem olha, um pouco menos quem
éramos, ainda que desconheçamos o que era
para suprimir desta forma rápida esta forma
que avança pelo vazio, forma informe
de segundos, forma formada pelas horas;
dia após dia de perda e de luta
por algo, uma vida melhor e mais digna,
um espaço na sociedade, o corpo pisado
pelas portas fechadas que abriram outras,
que outros tentaram fechar. existindo entre
realidade e sonho, lavrando um caminho,
encontrando surpresas e outros corpos,
outros corpos sem surpresas,
surpresas sem corpos,
acasos e mais umas horas de preenchimento
no esquecimento de quem tentamos ser um dia.
é não é? cada ano uma surpresa maior
e mais rápida? uma longa cauda de silêncio?
10 agosto 2010
Esperma
o esperma é uma coisa sagrada,
por isso, engole-me todo, deixa
que corra pela tua garganta e,
quem sabe, te aqueça o coração.
Espaço
será que há espaço para o amor entre cópulas?
entre o hábito e a surpresa, os corpos continuam
procurando o outro, outros animais quentes,
pessoas, insectos, e chafurdam entre lama,
esperma e sangue - as feridas ainda estão abertas
e ninguém sabe como as fechar definitivamente
- buscando vida, buscando um segundo em que,
sem pensar,
se complete a vazia engrenagem universal.
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