22 agosto 2010

Amor

de pernas cruzadas sob a mesa do café
falavam displicentemente sobre crenças, 
cruzando e descruzando os braços, as mãos
falando mais do que o que as palavras dizem.
entre o calor que se escapa e os corpos
que deixam de se reconhecer e os 
silêncios que pontuam palavras e mãos, 
as bocas diziam (depois de sorverem mais 
um golo de ar e de café) que o amor existe,
que é possível gostar de alguém, mesmo 
que não se fale do que somos por dentro
e que a paixão seja uma fome voraz 
que nos quer afogar na carne.
eu ouvia os argumentos, ouvia a voz baixa,
que necessitava de afirmar a sua magra
superioridade, usar todos os argumentos 
dos segredos confiados para me trinchar 
as arestas e me transformar em algo redondo 
e básico como a sua opinião. apesar do que
tu - e tu - dizes o amor é este negócio práctico: 
"lembra-te! esquece! haverá outro corpo para tapar
o vazio deixado por outro que outro deixou para trás."
e há quem acredite que há alguma partilha nisto. 

20 agosto 2010

Virtute

podes pensar que não, mas ainda é o teu nome 
que eu trago debaixo da língua; quem tu és
ainda o trago nas mãos e procuro consciente
da terrível inutilidade de tudo. morremos já, 
essa é a verdade, naquela noite de nascimento. 
sinto-te a medida das coisas, à medida do meu
corpo e do meu jeito. e por vezes queremos um
momento de paz; um sítio onde encostar a cabeça
e fechar os olhos, negar o mundo que nos entra
pelos sentidos dentro, renegar esta existência
que não compreendemos, estes dias de raiva, 
estes dias de nada, em que somos com a força
que nasce de sabermos que só isso podemos 
com a frágil consistência destes músculos, 
o fraco entendimento deste corpo incompreendido.
esta morte psicológica que nos entra cabeça
dentro, estes retinidos dos telemóveis, o brilho
constante da televisão, o som da vida fora
da janela, do outro lado da parede, sempre longe, 
sempre longe demais para o alcançar agora.
é esta a virtude do mundo: saber o que temos,
o que devemos fazer e prosseguir em direcção
a mais esse abismo, mais um desafio para nos
esquecermos, mais um lugar onde desaparecer
e deixar de ser quem sempre somos 
quando a solidão nos encontra
sem nada,
sem ninguém
onde nos apoiar
e nos dar força.

18 agosto 2010

Vinteoito

não te comovas porque eu sou
um traidor de todas as horas,
de todas as oportunidades, todos
os dias dividido entre o lembrar-te
e precisar de alguém que aqueça
este corpo para continuar 
a recordar-te. sonho com sexo,
calor, saliva - as tuas mãos colhendo
as flores negras do meu cancro, 
repelindo os insectos e os necrófagos.

vinte e oito, 
não o esperava. muito menos aqui,
com esta vida que não sei como caiu
nas minhas mãos, com todas estas 
escolhas e mortes que abraço. ainda 
jovem sem o ser muito, calcinei o corpo 
com sal e fumo e álcool até esquecer
quem sou, quem fui, quem queria ter sido
nas experiências ocultas na inconsequência
dos dias repetidos todos os novos dias
enquanto ainda conseguimos acordar.

quem somos a cada dia que passa?

nos dois dias da nossa vida somos 
a permanência de uma ilusão nos olhos 
de quem olha, um pouco menos quem 
éramos, ainda que desconheçamos o que era 
para suprimir desta forma rápida esta forma
que avança pelo vazio, forma informe 
de segundos, forma formada pelas horas; 
dia após dia de perda e de luta 
por algo, uma vida melhor e mais digna, 
um espaço na sociedade, o corpo pisado 
pelas portas fechadas que abriram outras, 
que outros tentaram fechar. existindo entre
realidade e sonho, lavrando um caminho, 
encontrando surpresas e outros corpos, 
outros corpos sem surpresas, 
surpresas sem corpos,
acasos e mais umas horas de preenchimento
no esquecimento de quem tentamos ser um dia.

é não é? cada ano uma surpresa maior 
e mais rápida? uma longa cauda de silêncio?

10 agosto 2010

Down in Candyland



  Morphine - Candy
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Esperma

o esperma é uma coisa sagrada, 
por isso, engole-me todo, deixa 
que corra pela tua garganta e,
quem sabe, te aqueça o coração.