15 setembro 2010

a fome

qual era mesmo a frase em que pensava 
quando entrei em casa e a encontrei,
vazia e silenciosa? o poesia perde-se
entre o azeite e o bife, a mostarda
daquela que metemos nas sandes 
e que nada tem a ver com a indignação;
todos estes ingredientes da minha
indigestão, do imaterial vazio da fome
que não pede alimento. não, 
não me comovo com o sofrimento dos 
animais que outras mãos mataram
para eu me alimentar, nem quando vejo
o teu corpo inerte no sono, abandonado. 
só penso no buraco que tenho no centro 
do meu ser e que tenho de preencher
com carne e sangue e algum sofrimento,
tortura. sabes, eu não sou uma pessoa boa.

14 setembro 2010

Lição

Tão inútil dizer. Quando se aproximava
da sala ia crescendo em tempestade
todo o seu corpo, a invulgar beleza
do rosto sem morada, os olhos sempre
fora do meu alcance. Outras palavras
quisera ter-lhe dito e acima de tudo
nada de literatura, mas cercava-nos
o espírito do sol, esse momento
em que a manhã leva todos os sonhos,
o prazer e a dor. Assim ficava
à espera de um milagre, apenas um
segredo que viesse ter connosco
pela primeira vez. Vá lá, então,
só quero o teu sorriso e, por favor,
nenhuma literatura - muito menos
ou muito mais, não sei bem, porque agora
vai ser a tua vez de me ensinares.



Fernando Pinto do Amaral
Poesia Reunida 1990-2000


via este blog

22 agosto 2010

Amor

de pernas cruzadas sob a mesa do café
falavam displicentemente sobre crenças, 
cruzando e descruzando os braços, as mãos
falando mais do que o que as palavras dizem.
entre o calor que se escapa e os corpos
que deixam de se reconhecer e os 
silêncios que pontuam palavras e mãos, 
as bocas diziam (depois de sorverem mais 
um golo de ar e de café) que o amor existe,
que é possível gostar de alguém, mesmo 
que não se fale do que somos por dentro
e que a paixão seja uma fome voraz 
que nos quer afogar na carne.
eu ouvia os argumentos, ouvia a voz baixa,
que necessitava de afirmar a sua magra
superioridade, usar todos os argumentos 
dos segredos confiados para me trinchar 
as arestas e me transformar em algo redondo 
e básico como a sua opinião. apesar do que
tu - e tu - dizes o amor é este negócio práctico: 
"lembra-te! esquece! haverá outro corpo para tapar
o vazio deixado por outro que outro deixou para trás."
e há quem acredite que há alguma partilha nisto. 

20 agosto 2010

Virtute

podes pensar que não, mas ainda é o teu nome 
que eu trago debaixo da língua; quem tu és
ainda o trago nas mãos e procuro consciente
da terrível inutilidade de tudo. morremos já, 
essa é a verdade, naquela noite de nascimento. 
sinto-te a medida das coisas, à medida do meu
corpo e do meu jeito. e por vezes queremos um
momento de paz; um sítio onde encostar a cabeça
e fechar os olhos, negar o mundo que nos entra
pelos sentidos dentro, renegar esta existência
que não compreendemos, estes dias de raiva, 
estes dias de nada, em que somos com a força
que nasce de sabermos que só isso podemos 
com a frágil consistência destes músculos, 
o fraco entendimento deste corpo incompreendido.
esta morte psicológica que nos entra cabeça
dentro, estes retinidos dos telemóveis, o brilho
constante da televisão, o som da vida fora
da janela, do outro lado da parede, sempre longe, 
sempre longe demais para o alcançar agora.
é esta a virtude do mundo: saber o que temos,
o que devemos fazer e prosseguir em direcção
a mais esse abismo, mais um desafio para nos
esquecermos, mais um lugar onde desaparecer
e deixar de ser quem sempre somos 
quando a solidão nos encontra
sem nada,
sem ninguém
onde nos apoiar
e nos dar força.