28 setembro 2010
Palavras nunca
Sim, posso escrever trigo
e trémulo, e de oiro,
mas uma espiga nunca
brotará do meu verso
como brota de um sulco.
Posso escrever pintassilgo
e trino, mas nunca
soará nos meus poemas
canto algum.
As nossas palavras nunca
cativarão as coisas.
Acercar-se-ão delas,
hão-de rodeá-las
como uma débil brisa...
tornando vazias.
Com um perfume talvez,
com um eco, com uma
memória esvaída...;
mas as coisas sempre
hão-de pertencer
ao seu mundo
e as palavras nunca
serão mais que palavras.
mas uma espiga nunca
brotará do meu verso
como brota de um sulco.
Posso escrever pintassilgo
e trino, mas nunca
soará nos meus poemas
canto algum.
As nossas palavras nunca
cativarão as coisas.
Acercar-se-ão delas,
hão-de rodeá-las
como uma débil brisa...
tornando vazias.
Com um perfume talvez,
com um eco, com uma
memória esvaída...;
mas as coisas sempre
hão-de pertencer
ao seu mundo
e as palavras nunca
serão mais que palavras.
- Miguel D'Orsneste blog
in El misterio de la felicidad (antologia)
27 setembro 2010
24 setembro 2010
Best Western Hotel Inca
À esquerda da travessa, quem
sobe
somos nós. Ao lado da esquadra
um hotel que ainda hoje
de seu nome
me ecoa no aquário.
BEST WESTERN HOTEL
INCA. Pode ser nicho
de escreventes,
servir whisky. Deixar entrar putas
ou companhias
dispostas a atravessar-se na cama
como quem varre uma feira
e deixa para trás caixas
cartões
e tendas desmontadas pelo vento.
Acredito nisso. Faz-me aliás
lembrar alguns poemas
desolados de um dos Paneros,
um ou outro de Freitas
e toda uma necessidade de tristeza
que soa a lamechas
em certos momentos como
este:
em que atravessamos a rua,
gargalhamos
e tentamos esquecer a solidão
comparticipando-a,
no encalço de mais um copo
e de um sorriso. Sempre
prontos a eternizar, aos poucos
e por tentativas, a revolta
que não nos dói
na noite –
na vertigem da altura.pertença deste blog
23 setembro 2010
Quarteto de Pompeia
Em Pompeia, entre outros corpos petrificados pela lava e as cinzas da erupção do Vesúvio (ano 79), estão conservados os de um homem e uma mulher no acto amoroso.
Despimo-nos tão furiosamente
a ponto de perdemos o sexo
debaixo da cama,
despimo-nos tanto
que as moscas jurariam
que estávamos mortos.
Despi-te por dentro
entrei-te tão fundo
que se extraviou o meu orgasmo.
Despimo-nos tão furiosamente
que cheirávamos a queimado,
e cem vezes a lava
voltou para esconder-nos.
II
Fizeste-me um dano tal
com tua boca, teus dedos,
fazias-me saltar tão alto
que eu era o teu estandarte
mesmo não havendo vento.
Despiste-me tão furiosamente
que pronunciei o meu nome
e doeu-me a língua,
doeu-me a idade.
Despimo-nos tão furiosamente
que os deuses tremeram,
e cem vezes mandaram
as lavas esconder-nos.
III
Esfregavas tão rápido
os seios que por duas vezes
caí nos seus remoinhos,
mexias lentamente o cu,
bem alto, fustigando-me
na sua negra emboscada,
seu perene meio-dia.
Abrias tanto a sua história,
já gritava o seu naufrágio...
Despimo-nos tão furiosamente
que não nos conhecíamos,
que os deuses mandaram
a lava reinventar-nos.
IV
Desmenti-te de cabo
a rabo devolvendo-te
aos teus primeiros actos,
perscrutei-te profundamente
até escutar a história
amarga do teu corpo,
pois só o amor sabe
como chegar tão fundo
sem violar o sangue.
Esta noite a lava
transformou a paisagem em pedra.
Tu e eu fomos a única coisa
que realmente morreu.
- Fabio Morábitoneste blog
in La ola que regressa (poesia reunida)
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