15 outubro 2010

sentidos da posse

a grande falácia do amor são os sentidos
da posse - e pensar que se conhece 
o mutante que dorme ao nosso lado,
pessoa sempre nova e desconhecida.

14 outubro 2010

LAMENTO E EXORTAÇÃO

Que chegámos demasiado tarde ao leito
da vida para qualquer sonho de emancipação
revolucionária, percebemo-lo aos vinte anos;
que justiça é uma palavra em esperanto
e a lei o mero eixo onde gira o privilégio,
percebemo-lo depois, muito a contragosto.
Resta-nos perder a última ilusão: a de que
haja ainda espaço, nesta feira popular
da mediocracia, para uma escrita que não
seja celebração do estúpido, estridente
Carrossel do embuste, da Grande Roda
que nos entontece de riso (em voltinhas
de onde a alma sai torcida e sem emprego),
do Túnel de Horrores Publicitários, da Barraca
de Tiro em que fazemos de patos; espaço,
enfim, para que dois dedos de beleza se
entrelacem, ou dois dedais de inteligência
se toquem num brinde ao farrapo da verdade.
Quando percebermos também isto, amigos,
saberemos que a Gloriosa Era da Literatura
Ocidental chegou ao fim, derretida (como
aliás sugere o seu acrónimo) pelo aquecimento
da emoção global; que não viemos aqui
para tentar ressuscitar um moribundo
(como crêem os mais optimistas), mas sim
para animar um velório. Carpideiras somos,
de violino ao ombro. O funeral está na rua.
Se queremos brilhar ainda um pouco,
é agora ou nunca. Afinemos as cordas,
as lágrimas, em dó maior. Vamos a isto?
neste blog

07 outubro 2010

inflação

cada vez há menos gente a falar comigo
e eu compreendo porquê. o interesse 
não é muito em alguém que apenas 
discorre sobre dois temas e sem paciência
para filmes de amor, ódio ou desinteresse.
talvez me deva culpar a mim mesmo,
já que o que pretendo é fechar-me dentro
de outra vida que não a minha até agora;
esconder-me dentro de um desconhecido
que saiba o que fazer, que saiba o que falar
e não se preocupe com a inflação da solidão.

06 outubro 2010

implementação

a república festeja-se com plasmas no jardim
e de bolsos hiantes no vazio: de belém
o que se avista
será sempre a miragem do medo,
o adamastor do retorno económico.

30 setembro 2010

Todos vocês parecem felizes

… e sorriem, às vezes, quando falam.
E dizem, ainda,
palavras
de amor. Mas
amam-se
de dois em dois
para
odiar de mil
em mil. E guardam
toneladas de asco
por cada
milímetro de felicidade.
E parecem – nada
mais que parecem – felizes,
e falam
com a finalidade de ocultar essa amargura
inevitável, e quantas
vezes não o conseguem, como
não posso eu ocultá-la
por mais tempo: esta
desesperante, estéril, larga,
cega desolação por qualquer coisa
que – para onde não sei –, lenta, me arrasta.



- Ángel González
(tradução de Daniel Ferreira)

28 setembro 2010