31 outubro 2010

Pelo menos isto

Temos essa incógnita
que corresponde ao escasso
estereótipo das pessoas sinceras
que não se abrigam
no hábito
para formalizar amizades.

Não escondemos, nenhum
de nós, o orgulho
perigoso e sombrio
que nos escorre no corpo,
principalmente quando dos outros
o medo se desvia

para ouvir o som dos espelhos
que partem; a imagem
que se insinua
desavergonhada:
mas também de sorriso
nos lábios.

Não gostamos ambos
das obrigatoriedades do mundo,
talvez por isso
o sarcasmo, a ironia; as elegias
vocalizadas
em homenagem à rudeza
das gentes da nossa terra.

Sabemos e compreendemos
que a brejeirice,
as caralhadas, são restos
de insubordinação desviante,
pedaços
               últimos do que sobrou.


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24 outubro 2010

últimas palavras

sei agora que nunca exististe… o que foste
foi uma miragem ao fundo do túnel 
da existência, um relâmpago da consciência
para me guiar através deste caminho,
para chegar aqui e compreender, finalmente,
que eu sou eu, por mim, só... solitário.

15 outubro 2010

sentidos da posse

a grande falácia do amor são os sentidos
da posse - e pensar que se conhece 
o mutante que dorme ao nosso lado,
pessoa sempre nova e desconhecida.

14 outubro 2010

LAMENTO E EXORTAÇÃO

Que chegámos demasiado tarde ao leito
da vida para qualquer sonho de emancipação
revolucionária, percebemo-lo aos vinte anos;
que justiça é uma palavra em esperanto
e a lei o mero eixo onde gira o privilégio,
percebemo-lo depois, muito a contragosto.
Resta-nos perder a última ilusão: a de que
haja ainda espaço, nesta feira popular
da mediocracia, para uma escrita que não
seja celebração do estúpido, estridente
Carrossel do embuste, da Grande Roda
que nos entontece de riso (em voltinhas
de onde a alma sai torcida e sem emprego),
do Túnel de Horrores Publicitários, da Barraca
de Tiro em que fazemos de patos; espaço,
enfim, para que dois dedos de beleza se
entrelacem, ou dois dedais de inteligência
se toquem num brinde ao farrapo da verdade.
Quando percebermos também isto, amigos,
saberemos que a Gloriosa Era da Literatura
Ocidental chegou ao fim, derretida (como
aliás sugere o seu acrónimo) pelo aquecimento
da emoção global; que não viemos aqui
para tentar ressuscitar um moribundo
(como crêem os mais optimistas), mas sim
para animar um velório. Carpideiras somos,
de violino ao ombro. O funeral está na rua.
Se queremos brilhar ainda um pouco,
é agora ou nunca. Afinemos as cordas,
as lágrimas, em dó maior. Vamos a isto?
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07 outubro 2010

inflação

cada vez há menos gente a falar comigo
e eu compreendo porquê. o interesse 
não é muito em alguém que apenas 
discorre sobre dois temas e sem paciência
para filmes de amor, ódio ou desinteresse.
talvez me deva culpar a mim mesmo,
já que o que pretendo é fechar-me dentro
de outra vida que não a minha até agora;
esconder-me dentro de um desconhecido
que saiba o que fazer, que saiba o que falar
e não se preocupe com a inflação da solidão.

06 outubro 2010

implementação

a república festeja-se com plasmas no jardim
e de bolsos hiantes no vazio: de belém
o que se avista
será sempre a miragem do medo,
o adamastor do retorno económico.