temos prazos hoje. quem somos, nada
vale submetido ao tempo e ao orgulho
que temos na forma como desperdiçamos
as nossas horas. é isto que acontece,
sempre a procura pela próxima grande coisa,
aquela grande oportunidade de mudar
o tédio de sítio como quem desloca
um osso. os dados do pessimismo rolam
dos dedos e as pessoas nas ruas
arrastam-se de um ponto para outro,
sempre com a mesma sede e mesma
fome de carne nova; a permanência
é um vício do passado romântico
que nos morde as franjas dos nervos.
sempre fomos só corpos - necessidades
diferentes que se encontram ocasionalmente.
resumindo, a felicidade será sempre algo
impossível de atingir - estamos demasiado
descontentes com o que temos e o sexo,
esse negócio sentimental, já só nos entedia.
28 novembro 2010
23 novembro 2010
18 novembro 2010
Separação do Corpo
O corpo tem abóbadas onde soam os
sentidos, se tocados de leve, ecoando longamente
como memórias de outra vida
em frios desertos ou praias de lama.
O passado não está ainda preparado para nós,
para não falar do futuro; é certo que
temos um corpo, mas é um corpo inerte,
feito mais de coisas como esperança e desejo
do que de carne, sangue, cabelo,
e desabitado de línguas e de astros
e de noites escuras, e nenhuma beleza o tortura
mas a morte, a dor e a certeza de que
não está aqui nem tem para onde ir.
Lemos de mais e escrevemos de mais,
e afastámo-nos de mais – pois o preço era
muito alto para o que podíamos pagar –
da alegria das línguas. Ficaram estreitas
passagens entre frio e calor
e entre certo e errado
por onde entramos como num quarto de pensão
com um nome suposto; e quanto a
tragédia, e mesmo quanto a drama moral,
foi o melhor que conseguimos.
A beleza do corpo amado é
(agora sabemo-lo) lixo orgânico.
O mármore que pudemos foi o das casas de banho
e o dos balcões dos bancos,
e grandes gestos nem nos romances,
quanto mais nos versos! E do amor
melhor é nem falar porque as línguas
tornaram-se objecto de estudo médico
e nenhuma palavra é já suficientemente secreta.
Corpo, corpo, porque me abandonaste?
“Tomai, comei”, pois sim, mas quando
a química não chega para adormecermos,
a que divindades havemos de nos acolher
senão àquelas últimas do passado soterradas
sob tanta chuva ácida e tanta investigação histórica,
tanta psicologia e tanta antropologia?
A memória, sem o corpo, não é ascensão nem recomeço,
e, sem ela, o corpo é incapaz de nudez
e de amor. Agora podemos calar-nos
sem temer o silêncio nem a culpa
porque já não há tais palavras.
sentidos, se tocados de leve, ecoando longamente
como memórias de outra vida
em frios desertos ou praias de lama.
O passado não está ainda preparado para nós,
para não falar do futuro; é certo que
temos um corpo, mas é um corpo inerte,
feito mais de coisas como esperança e desejo
do que de carne, sangue, cabelo,
e desabitado de línguas e de astros
e de noites escuras, e nenhuma beleza o tortura
mas a morte, a dor e a certeza de que
não está aqui nem tem para onde ir.
Lemos de mais e escrevemos de mais,
e afastámo-nos de mais – pois o preço era
muito alto para o que podíamos pagar –
da alegria das línguas. Ficaram estreitas
passagens entre frio e calor
e entre certo e errado
por onde entramos como num quarto de pensão
com um nome suposto; e quanto a
tragédia, e mesmo quanto a drama moral,
foi o melhor que conseguimos.
A beleza do corpo amado é
(agora sabemo-lo) lixo orgânico.
O mármore que pudemos foi o das casas de banho
e o dos balcões dos bancos,
e grandes gestos nem nos romances,
quanto mais nos versos! E do amor
melhor é nem falar porque as línguas
tornaram-se objecto de estudo médico
e nenhuma palavra é já suficientemente secreta.
Corpo, corpo, porque me abandonaste?
“Tomai, comei”, pois sim, mas quando
a química não chega para adormecermos,
a que divindades havemos de nos acolher
senão àquelas últimas do passado soterradas
sob tanta chuva ácida e tanta investigação histórica,
tanta psicologia e tanta antropologia?
A memória, sem o corpo, não é ascensão nem recomeço,
e, sem ela, o corpo é incapaz de nudez
e de amor. Agora podemos calar-nos
sem temer o silêncio nem a culpa
porque já não há tais palavras.
- Manuel António Pina
in Os livros, Assírio & Alvim
17 novembro 2010
07 novembro 2010
Saramago
Hoje falaremos de morte. Saramago morreu, já o sabemos e já passou tempo suficiente sobre a sua morte para todos o começarmos a esquecer. Sabemos, pelo menos aqueles que de nós se interessam mais, que com ele se perdeu uma forma particular de ver o Homem, esse animal dividido entre a santidade e o satanismo; entre a racionalidade e a bestialidade que nos caracteriza enquanto raça. Eu não são tão optimista como ele era, como já podem ver, mas ainda assim acho que há momentos de excepção.
Desde o momento em que soube que ele tinha morrido que queria escrever algo que, aos meus olhos, fosse uma despedida digna desse amigo cuja única voz que conheci foi aquela que vinha nos livros. Inicialmente, há 14 anos atrás, não gostava da sua escrita: preocupava-me a perda de referências gráficas no texto - como se ler fosse encontrar o caminho numa estrada sem luzes numa noite profunda. Na "História do Cerco de Lisboa", livro de leitura obrigatória para um aluno do curso de Línguas e Literaturas Modernas - Variante de Português/Inglês (um nome pomposo que significava "desemprego"), descobri a beleza na forma como aquele aglomerado de letras imitavam a vida nas suas dúvidas e incertezas, e a história - que é sempre sobre o bem que se faz, o mal que se causa, o amor e a mulher que se procuram sem encontrar (ou encontrando sempre algo novo a descobrir).
Há livros que mudam a nossa vida, a percepção das possibilidades das coisas, do mundo, das palavras. Saramago mudou-me enquanto pessoa e, de certa forma, deixou-me contagiado por uma estranha forma de optimismo decepcionado de quem acredita e já foi desiludido tantas vezes que já não vê motivos para deixar de acreditar. Alegoricamente, , Miller transformou a Humanidade num palhaço que tenta alcançar a lua através de uma escada - a mesma escada que Jacob sobe no seu sonho e onde sente a presença divina? O que dizer de livros em que somos, simultaneamente, a personagem, a escada, a lua e a presença divina de tudo isto?
"Memorial do Convento" e a fantasia tornada realidade, avançando a passos largos em direcção à afirmação pungente de tudo o que nos torna humanos: o medo do Rei e a sua inépcia sexual; os jogos económicos da Igreja; o misto de sonho e tecnologia do Frei Gusmão; o amor, maior que tudo, entre Baltasar e Blimunda, personagens mágicas, o motor silencioso e anónimo da história e desse ex-voto gigantesco que é o mosteiro. Deus sob a forma de Igreja sempre incomodou, assim como a opinião que tinhas da Igreja, incomodava muitos dos nossos doutores de boas famílias criados em quintas com capelas onde lhes ensinavam que o mundo lhes iria obedecer apenas porque eles nasceram ali, daquela casa e com as sólidas paredes daquele sobrenome. Tu vieste da terra e à terra tornaste, homem feito cinza - tu que de cinzas fazias homens.
Gosto de pensar que o que te fazia escrever era não o dinheiro, mas a vontade de explicar o mundo à tua avó, a mesma que sabemos ter tido um sorriso infinito e as mãos rudes de quem trabalhava nos campos. E talvez esses campos, essas raízes humildes fossem o motivo de tanto ódio por aquilo que fazias e escrevias. Como se atreve aquele homenzinho a tentar mudar a língua quando nenhum de nós se atreveu ainda a pensar nisso? - sempre que falavam era isto que se escutava por detrás de cada palavra. "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" é um livro em que Jesus é feito homem indeciso, vítima reticente da vontade de Deus ou dos homens, ou de um Deus satânico que prefere confundir-nos e foi este livro aquele que te colocou à parte, longe do pensamento dos portugueses. Sim, porque ainda amamos pouco as pessoas que ofendem Deus, Pátria e Família. Sousa Lara, essa voz ignorante feita arauto do cavaquismo, disse-o melhor que ninguém quando afirmou que o livro "não expressava as opiniões dos portugueses" - resta saber se ele conhecia todos os portugueses ou se já tinha sequer lido o livro. Ainda agora, mais de dez anos passados, os portugueses ainda não se habituaram a pensar a religião como algo imanente ao homem, um sentido difuso como o tacto que não necessita de uma hierarquia empresarial para se expressar ou organizar.
Depois deste momento chamaram-lhe "todos os nomes" e esqueceram-no até que ganhou o Nobel - e passou a ser português novamente, um motivo de orgulho que já expressava, e concentrava até, as opiniões dos portugueses. Enquanto povo, como colectivo, deveríamos ter vergonha da nossa tacanhez, deste seguidismo de pessoas pequeninas e sem valor que corre de um lado para o outro, mandatado por outras vontades. Ainda assim, houve quem continuasse a ler e a criticar sem nunca ter lido as palavras, sem querer compreender, ou compreendendo bem demais, que as palavras vinham de dentro, que brotavam da pessoa e não de um canudo ou conjunto de regras apreendidas na escola.
Enquanto isso fazias a tua "Viagem de Elefante", o teu primeiro resgate da vida à morte enquanto o teu corpo escolhia sem saberes outro dia e outra hora para a tua morte. Trabalhavas, juntando mais palavras, tentando melhorar a Humanidade e a ensinar-nos a ver e pensar em português. Ainda tiveste tempo para ver o "Ensaio sobre a Cegueira" adaptado magistralmente para cinema - e, tal como tu, eu teria chorado pelo amor e cuidado empregues na cinematografia da tua obra.
Entretanto chegou o teu dia e eu acordei com essa notícia sabendo imediatamente que um tempo tinha terminado; que algo estava irremediavelmente perdido e que, até eu, era agora outra pessoa. Escrevi um poema e emocionei-me com o que as pessoas anónimas, os motores silenciosos da história, contavam sobre a forma como tocaste as suas vidas; ri-me quando li os anátemas que o Vaticano lançava sobre a tua alma imortal - e conseguia ver-te a ti também a rir; e chorei quando ouvi uma senhora a falar no telejornal do dia 20 de Junho de 2010 e que dizia, olhando de frente para a câmara "não li, mas tenho ouvido ler porque não sei ler, infelizmente. A minha cunhada Maria José é que lê muitos livros dele. Lindos!"
É pena não estares cá para fazeres deste soundbyte algo maior que aquela cara, que aquele corpo que um dia encontrarás, talvez, para lhe leres outras histórias.
04 novembro 2010
Amor Outra Vez
O amor de novo, às três e dez
(ele já a deve ter levado a casa, não?),
O quarto quente como um forno,
A bebida amortecida, que oculta o modo
De nos encontrarmos amanhã e depois
E a dor de sempre, como disenteria.
Outro que lhe sente as mamas e a cona,
Outro afogado no seu olhar, todo pestanas,
E eu que deveria ser ignorante
Ou achar tudo isto engraçado, ou nem sequer
Me importar… Mas para quê pô-lo em palavras?
Em vez disso, isola este elemento,
Que se estende por sobre outras vidas, como uma árvore
E de certa maneira as move,
E diz porque nunca resultaram as coisas para mim.
Alguma coisa que tem a ver com violência
Há tanto tempo, recompensas erradas
E a arrogante eternidade.
neste blog
O quarto quente como um forno,
A bebida amortecida, que oculta o modo
De nos encontrarmos amanhã e depois
E a dor de sempre, como disenteria.
Outro que lhe sente as mamas e a cona,
Outro afogado no seu olhar, todo pestanas,
E eu que deveria ser ignorante
Ou achar tudo isto engraçado, ou nem sequer
Me importar… Mas para quê pô-lo em palavras?
Em vez disso, isola este elemento,
Que se estende por sobre outras vidas, como uma árvore
E de certa maneira as move,
E diz porque nunca resultaram as coisas para mim.
Alguma coisa que tem a ver com violência
Há tanto tempo, recompensas erradas
E a arrogante eternidade.
- Philip Larkin
(tradução de Hugo Pinto Santos)
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