20 dezembro 2010

numa estrada deserta

depois de uns anos tudo se torna igual:
a eterna espera, o calor difuso, as pernas
abertas que escondem o coração. os cheiros,
o cérebro sensorial e o ritmo bruto do contacto.
o esforço e o suor que purifica. depois, as mesmas
perguntas, invariáveis como lágrimas e medos
que deixam transparecer no corpo que arrefece
quando se reencontra só, descansando ao lado
de outra solidão ignorada. e passam-se noites,
estas tornam-se dias e os dias convertem-se em anos
negros, dias de tédio e outras coisas que se procuram
no suor de estranhos. Lentamente, todas as
memórias se esvaziam de significado, como sangue
de outro ninguém coalhado no chão,
como um acidente estranho com que nos cruzamos
                                              numa estrada deserta.

cinco da tarde no marquês

cinco da tarde no marquês, um café
igual a tantos, vazio como outros:
fora da montra um homem fuma
e é observado por uma criança. há
um espaço em branco na montra,
memórias de outros tempos em que
cascatas de bolos coloriam a gula
infantil e obscureciam a torre da igreja
que está do outro lado da praça. este
dia é de chumbo e água, inverno duro
sobre as cabeças e o fumo nos faróis
que encandeiam as perguntas da criança,
o dedo inquisitivo apontado aos olhos
adultos. começa a chover, eu espero ainda,
e nada disto significou algo ou será lembrado.

07 dezembro 2010

17 RESPOSTAS POSSÍVEIS À PERGUNTA (BASTANTE ESTÚPIDA, ALIÁS) «QUAL É O TEMA DA SUA POESIA?»




para o Miguel Martins




É sobre os problemas de auto-estima das bonecas insufláveis.


É sobre a vantagem das navalhas em relação às máquinas de barbear.


É sobre os efeitos da nicotina no acasalamento de lagartixas.


É sobre Super Bock, Famous Grouse e, em dias melhores, Glenlivet.


É sobre as ruas de Lisboa, quando as acho suficientemente tristes.


É sobre o nada, minha única «matéria» (Drummond).


É sobre tremoços, amendoins e Domenico Scarlatti.


É sobre as alterações climatéricas no Bairro da Serafina.


É sobre gatos mortos e outros que ainda não morreram.


É sobre os seios de Jeanne Hébuterne e as mãos de Glenn Gould.


É sobre o bife de lombo à portuguesa do Trivial e os filetes de polvo do Apuradinho.


É sobre política internacional, obviamente.


É sobre a cona da tua mãe, leitor.


É sobre a minha vida, que nunca daria uma telenovela.


É sobre Copenhaga, Barcelona, Madrid, Paris e Celorico da Beira.


É sobre cáries dentárias, fundamentalmente.


É sobre coisas que preferia ter calado.


- Manuel de Freitas


Trivial, 7.05.2010, depois de meia garrafita de Monte Velho tinto


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02 dezembro 2010

como sou incapaz de contar histórias fotografo corpos
muitas vezes como maneira de agarrar o vento
faço construções de quem conhece por dentro a monotonia
e para aumentar o grão
anoto o vermelho que trespassa o olhar vazio


- Maria Sousa

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28 novembro 2010

o prazo de hoje

temos prazos hoje. quem somos, nada
vale submetido ao tempo e ao orgulho
que temos na forma como desperdiçamos
as nossas horas. é isto que acontece,
sempre a procura pela próxima grande coisa,
aquela grande oportunidade de mudar
o tédio de sítio como quem desloca
um osso. os dados do pessimismo rolam
dos dedos e as pessoas nas ruas
arrastam-se de um ponto para outro,
sempre com a mesma sede e mesma
fome de carne nova; a permanência
é um vício do passado romântico
que nos morde as franjas dos nervos.
sempre fomos só corpos - necessidades
diferentes que se encontram ocasionalmente.
resumindo, a felicidade será sempre algo
impossível de atingir - estamos demasiado
descontentes com o que temos e o sexo,
esse negócio sentimental, já só nos entedia.