depois de uns anos tudo se torna igual:
a eterna espera, o calor difuso, as pernas
abertas que escondem o coração. os cheiros,
o cérebro sensorial e o ritmo bruto do contacto.
o esforço e o suor que purifica. depois, as mesmas
perguntas, invariáveis como lágrimas e medos
que deixam transparecer no corpo que arrefece
quando se reencontra só, descansando ao lado
de outra solidão ignorada. e passam-se noites,
estas tornam-se dias e os dias convertem-se em anos
negros, dias de tédio e outras coisas que se procuram
no suor de estranhos. Lentamente, todas as
memórias se esvaziam de significado, como sangue
de outro ninguém coalhado no chão,
como um acidente estranho com que nos cruzamos
numa estrada deserta.