20 dezembro 2010

amor e uma cabana

o amor já não te chegava e subitamente
todas as paredes da cabana pareciam 
verdes, sujas, inúteis como o telhado 
que deixava entrar o sol e a chuva. 

partimos ambos e a casa encheu-se
de sombras: nada mais há a dizer.

aquela noite

que noite aquela. todo aquele álcool
que apenas serviu para me lavar 
a boca da armadura das palavras, 
mais o esquecimento, breve, do caminho 
que ainda falta percorrer. quem me olha
do outro lado do espelho? os passos, 
esses, onde caem sem apoio? e quem
é esta gente que atravesso? onde
estão todos os meus amigos e as mãos
que eu conhecia?por muito que procure,
já não há nada a encontrar e,
hoje,
escolhi não ver, ser cego e não 
compreender nada do que me rodeia. 
contudo
chega sempre um momento na noite
nítida entre as luzes em que somos mais
humanos e ricos porque não tememos nada,
                                                    excepto o sono.

numa estrada deserta

depois de uns anos tudo se torna igual:
a eterna espera, o calor difuso, as pernas
abertas que escondem o coração. os cheiros,
o cérebro sensorial e o ritmo bruto do contacto.
o esforço e o suor que purifica. depois, as mesmas
perguntas, invariáveis como lágrimas e medos
que deixam transparecer no corpo que arrefece
quando se reencontra só, descansando ao lado
de outra solidão ignorada. e passam-se noites,
estas tornam-se dias e os dias convertem-se em anos
negros, dias de tédio e outras coisas que se procuram
no suor de estranhos. Lentamente, todas as
memórias se esvaziam de significado, como sangue
de outro ninguém coalhado no chão,
como um acidente estranho com que nos cruzamos
                                              numa estrada deserta.

cinco da tarde no marquês

cinco da tarde no marquês, um café
igual a tantos, vazio como outros:
fora da montra um homem fuma
e é observado por uma criança. há
um espaço em branco na montra,
memórias de outros tempos em que
cascatas de bolos coloriam a gula
infantil e obscureciam a torre da igreja
que está do outro lado da praça. este
dia é de chumbo e água, inverno duro
sobre as cabeças e o fumo nos faróis
que encandeiam as perguntas da criança,
o dedo inquisitivo apontado aos olhos
adultos. começa a chover, eu espero ainda,
e nada disto significou algo ou será lembrado.

07 dezembro 2010

17 RESPOSTAS POSSÍVEIS À PERGUNTA (BASTANTE ESTÚPIDA, ALIÁS) «QUAL É O TEMA DA SUA POESIA?»




para o Miguel Martins




É sobre os problemas de auto-estima das bonecas insufláveis.


É sobre a vantagem das navalhas em relação às máquinas de barbear.


É sobre os efeitos da nicotina no acasalamento de lagartixas.


É sobre Super Bock, Famous Grouse e, em dias melhores, Glenlivet.


É sobre as ruas de Lisboa, quando as acho suficientemente tristes.


É sobre o nada, minha única «matéria» (Drummond).


É sobre tremoços, amendoins e Domenico Scarlatti.


É sobre as alterações climatéricas no Bairro da Serafina.


É sobre gatos mortos e outros que ainda não morreram.


É sobre os seios de Jeanne Hébuterne e as mãos de Glenn Gould.


É sobre o bife de lombo à portuguesa do Trivial e os filetes de polvo do Apuradinho.


É sobre política internacional, obviamente.


É sobre a cona da tua mãe, leitor.


É sobre a minha vida, que nunca daria uma telenovela.


É sobre Copenhaga, Barcelona, Madrid, Paris e Celorico da Beira.


É sobre cáries dentárias, fundamentalmente.


É sobre coisas que preferia ter calado.


- Manuel de Freitas


Trivial, 7.05.2010, depois de meia garrafita de Monte Velho tinto


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02 dezembro 2010

como sou incapaz de contar histórias fotografo corpos
muitas vezes como maneira de agarrar o vento
faço construções de quem conhece por dentro a monotonia
e para aumentar o grão
anoto o vermelho que trespassa o olhar vazio


- Maria Sousa

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