durmo… e é outra vida que vejo, outra pessoa
que me olha. olho estas fotografias, as faces,
esta amostra sem oxigénio do passado, esta
vaga forma de recordar horas, toda esta gente
que nunca foi mais que a ideia que tinha delas
e a ideia que eles tinham de mim, esta vida
imaginada e participativa, parte, breve,
deste sonho do qual agora acordei.
e agora estou num shopping qualquer
inexistente, excepto na minha imaginação,
enquanto penso norteshopping, mas são iguais
todas estas catedrais construídas sobre fragilidades
de compra e venda, económicas como tudo o mais,
e alguém passa de mão dada com a minha vida
com o passado desconstruído e feito carne
como um verbo pretérito. regresso a outra noite
e agora esqueci-me de como é uma árvore,
não saberia encaixar nas palavras a forma
e o verde laranja pelas lâmpadas da rua;
os ramos como dedos implorantes à noite,
a este frio e névoa que nos come a pele;
e conduzo pela VCI, curva, contracurva,
cada vez mais rápido, largar o volante:
voar com um estrondo incompleto...
de novo me movo no shopping, tu ainda
no mesmo corredor pesadelo, em passo
lento e estroboscópico como se movem
todas as pessoas apaixonadas, as mesmas
mãos entrelaçadas sob esta luz fria, as vozes
duas, parando e explicando civilizadamente
o porquê de tudo ter que ser assim sob a luz fria
e branca, highkey do pesadelo de que desperto,
cego
a janela flutuante no negro, luz azul de cedo,
a respiração quebrada de quem viu e falou
com quem vem do outro lado do lado de dentro;
verificar que é neste quarto que estou e ali
não, sendo vítima e morte de mim mesmo,
e regressar ao sono porque ainda é cedo para voltar
a viver, a respirar autónomo de quem sou.