(alguém me tira daqui, por favor?)
hoje ligaram a perguntar pelas flores,
se tinha enviado aquelas flores
que nunca cheguei a oferecer
- e eu disse "não, não tenho dinheiro"
para conseguir fazer isso, esse gesto
cliché de quem agradece a tolerância
ou a noite de sexo selvagem. assim
se marca presença com classe, assim
um homem ama a sua mulher ou a marca
para todos verem que ela está ali, tem
alguém e que é recordada. não sei
porque me ligaram a mim que nunca dei
nada excepto problemas e dores de cabeça
a toda a gente. não sei porque ainda ligam
do outro lado do meu mundo a perguntar
se ainda sei o que é este gesto de posse,
eu que nada tenho, eu que nunca soube
o que era ter, excepto tudo aquilo que dei.
aquelas rosas tinham espinhos e o amor
de que elas falam é como um aquário: vive-se,
mas as paredes estendem-se ao infinito
do toque dando a ilusão da passagem,
do longo corredor sólido da prisão.