17 janeiro 2011

Ramo de flores

(alguém me tira daqui, por favor?) 

hoje ligaram a perguntar pelas flores, 
se tinha enviado aquelas flores 
que nunca cheguei a oferecer 
- e eu disse "não, não tenho dinheiro"
para conseguir fazer isso, esse gesto
cliché de quem agradece a tolerância
ou a noite de sexo selvagem. assim 
se marca presença com classe, assim 
um homem ama a sua mulher ou a marca
para todos verem que ela está ali, tem
alguém e que é recordada. não sei 
porque me ligaram a mim que nunca dei
nada excepto problemas e dores de cabeça
a toda a gente. não sei porque ainda ligam
do outro lado do meu mundo a perguntar
se ainda sei o que é este gesto de posse,
eu que nada tenho, eu que nunca soube 
o que era ter, excepto tudo aquilo que dei.
aquelas rosas tinham espinhos e o amor 
de que elas falam é como um aquário: vive-se,
mas as paredes estendem-se ao infinito 
do toque dando a ilusão da passagem, 
do longo corredor sólido da prisão.

05 janeiro 2011

sem nome

durmo… e é outra vida que vejo, outra pessoa 
que me olha. olho estas fotografias, as faces,
esta amostra sem oxigénio do passado, esta
vaga forma de recordar horas, toda esta gente
que nunca foi mais que a ideia que tinha delas
e a ideia que eles tinham de mim, esta vida 
imaginada e participativa, parte, breve, 
deste sonho do qual agora acordei.

e agora estou num shopping qualquer 
inexistente, excepto na minha imaginação,
enquanto penso norteshopping, mas são iguais
todas estas catedrais construídas sobre fragilidades
de compra e venda, económicas como tudo o mais, 
e alguém passa de mão dada com a minha vida
com o passado desconstruído e feito carne
como um verbo pretérito. regresso a outra noite

e agora esqueci-me de como é uma árvore, 
não saberia encaixar nas palavras a forma
e o verde laranja pelas lâmpadas da rua;
os ramos como dedos implorantes à noite,
a este frio e névoa que nos come a pele;
e conduzo pela VCI, curva, contracurva,
cada vez mais rápido, largar o volante:
voar com um estrondo incompleto...

de novo me movo no shopping, tu ainda 
no mesmo corredor pesadelo, em passo
lento e estroboscópico como se movem 
todas as pessoas apaixonadas, as mesmas
mãos entrelaçadas sob esta luz fria, as vozes
duas, parando e explicando civilizadamente
o porquê de tudo ter que ser assim sob a luz fria
e branca, highkey do pesadelo de que desperto,

cego

a janela flutuante no negro, luz azul de cedo,
a respiração quebrada de quem viu e falou 
com quem vem do outro lado do lado de dentro;
verificar que é neste quarto que estou e ali
não, sendo vítima e morte de mim mesmo,
e regressar ao sono porque ainda é cedo para voltar
a viver, a respirar autónomo de quem sou.

20 dezembro 2010

amor e uma cabana

o amor já não te chegava e subitamente
todas as paredes da cabana pareciam 
verdes, sujas, inúteis como o telhado 
que deixava entrar o sol e a chuva. 

partimos ambos e a casa encheu-se
de sombras: nada mais há a dizer.

aquela noite

que noite aquela. todo aquele álcool
que apenas serviu para me lavar 
a boca da armadura das palavras, 
mais o esquecimento, breve, do caminho 
que ainda falta percorrer. quem me olha
do outro lado do espelho? os passos, 
esses, onde caem sem apoio? e quem
é esta gente que atravesso? onde
estão todos os meus amigos e as mãos
que eu conhecia?por muito que procure,
já não há nada a encontrar e,
hoje,
escolhi não ver, ser cego e não 
compreender nada do que me rodeia. 
contudo
chega sempre um momento na noite
nítida entre as luzes em que somos mais
humanos e ricos porque não tememos nada,
                                                    excepto o sono.

numa estrada deserta

depois de uns anos tudo se torna igual:
a eterna espera, o calor difuso, as pernas
abertas que escondem o coração. os cheiros,
o cérebro sensorial e o ritmo bruto do contacto.
o esforço e o suor que purifica. depois, as mesmas
perguntas, invariáveis como lágrimas e medos
que deixam transparecer no corpo que arrefece
quando se reencontra só, descansando ao lado
de outra solidão ignorada. e passam-se noites,
estas tornam-se dias e os dias convertem-se em anos
negros, dias de tédio e outras coisas que se procuram
no suor de estranhos. Lentamente, todas as
memórias se esvaziam de significado, como sangue
de outro ninguém coalhado no chão,
como um acidente estranho com que nos cruzamos
                                              numa estrada deserta.

cinco da tarde no marquês

cinco da tarde no marquês, um café
igual a tantos, vazio como outros:
fora da montra um homem fuma
e é observado por uma criança. há
um espaço em branco na montra,
memórias de outros tempos em que
cascatas de bolos coloriam a gula
infantil e obscureciam a torre da igreja
que está do outro lado da praça. este
dia é de chumbo e água, inverno duro
sobre as cabeças e o fumo nos faróis
que encandeiam as perguntas da criança,
o dedo inquisitivo apontado aos olhos
adultos. começa a chover, eu espero ainda,
e nada disto significou algo ou será lembrado.