16 fevereiro 2011

Cowboy Junkies

e tudo o que resta é uma música gasta 
na juke box; a doçura de um nome, meia
dúzia de acordes mágicos que ainda contêm
o sonho. esta noite entrego-me às memórias
que só a mim dizem respeito e tento fazer
com que os dedos recordem o ofício do amor
- e acaricio este fraco corpo de aço para amar 
compassado como um coração avariado. 
deixa escorrer mais uma moeda para o interior
da máquina para lembrar o momento cristalizado, 
o insecto aprisionado no vinil gasto. aproveita
estes três minutos e vinte e oito porque depois
só restará o teu silêncio, as mãos vazias
e o copo seguro firmemente entre o fumo e vozes.

21 janeiro 2011

Haiku sensaboroso

trocaram-me as voltas,
do invisível caminho por trilhar,
com o wally.

(agora sei onde estás)

17 janeiro 2011

Ramo de flores

(alguém me tira daqui, por favor?) 

hoje ligaram a perguntar pelas flores, 
se tinha enviado aquelas flores 
que nunca cheguei a oferecer 
- e eu disse "não, não tenho dinheiro"
para conseguir fazer isso, esse gesto
cliché de quem agradece a tolerância
ou a noite de sexo selvagem. assim 
se marca presença com classe, assim 
um homem ama a sua mulher ou a marca
para todos verem que ela está ali, tem
alguém e que é recordada. não sei 
porque me ligaram a mim que nunca dei
nada excepto problemas e dores de cabeça
a toda a gente. não sei porque ainda ligam
do outro lado do meu mundo a perguntar
se ainda sei o que é este gesto de posse,
eu que nada tenho, eu que nunca soube 
o que era ter, excepto tudo aquilo que dei.
aquelas rosas tinham espinhos e o amor 
de que elas falam é como um aquário: vive-se,
mas as paredes estendem-se ao infinito 
do toque dando a ilusão da passagem, 
do longo corredor sólido da prisão.

05 janeiro 2011

sem nome

durmo… e é outra vida que vejo, outra pessoa 
que me olha. olho estas fotografias, as faces,
esta amostra sem oxigénio do passado, esta
vaga forma de recordar horas, toda esta gente
que nunca foi mais que a ideia que tinha delas
e a ideia que eles tinham de mim, esta vida 
imaginada e participativa, parte, breve, 
deste sonho do qual agora acordei.

e agora estou num shopping qualquer 
inexistente, excepto na minha imaginação,
enquanto penso norteshopping, mas são iguais
todas estas catedrais construídas sobre fragilidades
de compra e venda, económicas como tudo o mais, 
e alguém passa de mão dada com a minha vida
com o passado desconstruído e feito carne
como um verbo pretérito. regresso a outra noite

e agora esqueci-me de como é uma árvore, 
não saberia encaixar nas palavras a forma
e o verde laranja pelas lâmpadas da rua;
os ramos como dedos implorantes à noite,
a este frio e névoa que nos come a pele;
e conduzo pela VCI, curva, contracurva,
cada vez mais rápido, largar o volante:
voar com um estrondo incompleto...

de novo me movo no shopping, tu ainda 
no mesmo corredor pesadelo, em passo
lento e estroboscópico como se movem 
todas as pessoas apaixonadas, as mesmas
mãos entrelaçadas sob esta luz fria, as vozes
duas, parando e explicando civilizadamente
o porquê de tudo ter que ser assim sob a luz fria
e branca, highkey do pesadelo de que desperto,

cego

a janela flutuante no negro, luz azul de cedo,
a respiração quebrada de quem viu e falou 
com quem vem do outro lado do lado de dentro;
verificar que é neste quarto que estou e ali
não, sendo vítima e morte de mim mesmo,
e regressar ao sono porque ainda é cedo para voltar
a viver, a respirar autónomo de quem sou.