hoje em dia fazemos tudo para estar tristes
e conformados com a conformidade da desilusão.
nem pensar em sorrir da imensa ironia de tudo isto,
esboçar um sorriso para afrontar os deuses
humanos e mitológicos que nos tentam fazer crer
na infame noção de destino, fado, todas essas coisas
podres e cobardes que usamos para nos esconder
do poder das nossas decisões, da mudança
que é sempre um salto no futuro, sobre o vazio
que se tenta preencher. para que precisamos
de tanta dor, de cinemas cheios de sangue e terroristas
e sexo violento ou de pálidas imitações de amor
cor-de-rosinha e leve e jovem, fresco, e sem conteúdo
- não há como apagar esta sede de confronto
com o fim violento do mundo às possíveis mãos
de terroristas devidamente armados de toalhas
ou de vizinhos parvos armados em vigilantes da moral
e bons costumes passageiros. vivo e estou vivo
neste mundo sem deuses e com cada vez menos pessoas,
sou sozinho para além de dois círculos, e como todos
não faço ideia porque estou aqui. depois de tudo
o que perdi, de tudo o que ganhei e aprendi, sou
outra pessoa, o mesmo, outro-melhor-em-mim.
e tento ser assim ou de outra forma ou como seja,
mas ser e saber sorrir, encontrar pequenas coisas,
uma vírgula a mais, um erro, um esquecimento,
mais um traço da imperfeição que nos une a todos
nesta imensa tristeza de não ser o que há de melhor
no outro, na outra pele tão fácil e sempre mais perfeita,
uma cicatriz para onde se olha e se esquece a cura.
01 março 2011
Vistas à noite as coisas estão ainda pior do que parecem
o poço das escadas é frio pedra
e nele adormeço sem uma moeda
para passar para o outro lado.
empurraram-me para aqui, mãos
rudes apagaram a minha presença
da fila da refeição, da cama que iam
emprestar-me por esta noite breve
e empurraram-me para este canto
escuro, fora de portas com os sacos
onde levo quem sou, entre as ruas
da cidade e a memória da caridade.
vivi sempre do outro lado da vida
já que não deixo ninguém de mim
para me recordarem. a meu lado,
agora, ninguém senão a minha
sombra, a desgraça das minhas
mãos e o frio que me come a pele.
16 fevereiro 2011
Cowboy Junkies
e tudo o que resta é uma música gasta
na juke box; a doçura de um nome, meia
dúzia de acordes mágicos que ainda contêm
o sonho. esta noite entrego-me às memórias
que só a mim dizem respeito e tento fazer
com que os dedos recordem o ofício do amor
- e acaricio este fraco corpo de aço para amar
compassado como um coração avariado.
deixa escorrer mais uma moeda para o interior
da máquina para lembrar o momento cristalizado,
o insecto aprisionado no vinil gasto. aproveita
estes três minutos e vinte e oito porque depois
só restará o teu silêncio, as mãos vazias
e o copo seguro firmemente entre o fumo e vozes.
14 fevereiro 2011
31 janeiro 2011
21 janeiro 2011
17 janeiro 2011
Ramo de flores
(alguém me tira daqui, por favor?)
hoje ligaram a perguntar pelas flores,
se tinha enviado aquelas flores
que nunca cheguei a oferecer
- e eu disse "não, não tenho dinheiro"
para conseguir fazer isso, esse gesto
cliché de quem agradece a tolerância
ou a noite de sexo selvagem. assim
se marca presença com classe, assim
um homem ama a sua mulher ou a marca
para todos verem que ela está ali, tem
alguém e que é recordada. não sei
porque me ligaram a mim que nunca dei
nada excepto problemas e dores de cabeça
a toda a gente. não sei porque ainda ligam
do outro lado do meu mundo a perguntar
se ainda sei o que é este gesto de posse,
eu que nada tenho, eu que nunca soube
o que era ter, excepto tudo aquilo que dei.
aquelas rosas tinham espinhos e o amor
de que elas falam é como um aquário: vive-se,
mas as paredes estendem-se ao infinito
do toque dando a ilusão da passagem,
do longo corredor sólido da prisão.
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