não quero escrever mais. não me apetece.
não tenho a quem ou razão para escrever,
mas aparecem palavras alinhadas, palavras
sombra. mas é verdade… não há destinatário
à mensagem que transmito, aos contos contados,
às horas perdidas contando os dedos do ritmo:
esta caverna não devolve os ecos, apenas tolhe
os olhos e os membros caídos ao lado do corpo.
temos todo um mundo-relógio organizado
para nos dizer que está tudo muito mau,
que temos sorte em ter uma vida que gira
em torno do medo: o medo do trabalho, da falta
de trabalho, do pouco dinheiro, do contentarmo-nos
com pouco, com o sabor ácido da liberdade de ser
adulto e responsável e ter uma casa e uma televisão
a quem regressar todos os dias. nada sei dizer
acerca da precisão matemática deste mundo
nem tenho nada a dizer sobre a forma subtil
como nos despimos de humanidade, ou como
vivemos com sonhos possíveis, materiais,
e vamos esquecendo quem fomos, lentamente,
até termos idade para relembrar o que perdemos.
falo para ninguém, porque não falo - ou não me faço
ouvir. posso-vos contar que agora não tenho nada:
o dinheiro no banco, contado a juros para outra vida
que agora não viverei, desapareceu; as mãos,
minhas, agarram-se ao tecido do invisível,
perseguem um sonho há muito tempo. o sonho
comeu-me a vida, queimou-me os olhos e a pele,
fez-me olhar para dentro das coisas e ver que
somos coisas vazias e é no outro-impossível
que nos completamos.. é um círculo que não
se encontra, uma espiral que cai. o regresso,
esse, se acontece, é como se se voltasse outro:
não nos conhecem, esqueceram o nome, o cheiro,
as palavras e a voz que as proferia. coisa em mundo
de coisas. apenas mais uma palavra para definir.