30 março 2011
28 março 2011
Cântico
Não consentir a fórmula
Não produzir nenhuma
Nunca pisar os calos
Não desmanchar a cama
Dos sonhos necessários
Não lançar mais tinta
Sobre a mesma tela
Volvidos tantos anos –
Não deixar de beber
O vinho da esperança
Dizer dizer tudo
Dizer quase tudo
Em palavras sem jaça
E um amor sem limites
Por todos por tudo
Nunca pisar os calos
Não desmanchar a cama
Dos sonhos necessários
Não lançar mais tinta
Sobre a mesma tela
Volvidos tantos anos –
Não deixar de beber
O vinho da esperança
Dizer dizer tudo
Dizer quase tudo
Em palavras sem jaça
E um amor sem limites
Por todos por tudo
- Alberto de Lacerda
in Oferenda I, Imprensa Nacional
neste blog
25 março 2011
Mais um
"some are born to sweet delight/some are born to the endless night"
the doors, end of the night
sim, é assim em traços largos e pouco coloridos.
se a delícia é um bem, segundo as leis económicas
é normal que não haja suficiente para todos. como
sempre, é uma questão de localização, acesso,
investimento em factores desmultiplicadores
de bens em produtos ou vice-versa.
para uns o amor, para outros as outras coisas,
o que importa é continuar a procurar, a investir
noutros valores até encontrar uma felicidade
possível, sempre breve demais. se hoje nos
desiludimos, amanhã pode ser que os sonhos
sejam verdade ou outra coisa qualquer sem nome,
algo intermédio como todas as nossas considerações.
vejamos: falta sempre a coragem para a primeira
palavra, para o primeiro gesto - de tantas montras
que olhamos, deixamos de saber como falar,
como entrar pelos olhos do outro dentro. ainda…
para já ainda é difícil comprar pessoas. há quem
não esteja aberto para transacções comerciais;
há quem não tenha o preço à vista; há quem
não tenha prazer no negócio. de resto, é um processo
como outro qualquer. daquela subtil economia, desta
descrição desiludida, daquele processo físico-químico
que leva da impressão à expressão carnal do prazer
ou desilusão, o tempo é relativo, contudo previsto
por uma fórmula matemática que não vou explicar
porque é totalmente irrelevante para a compreensão
impírica das coisas. acontecem - apenas - eles e elas,
eles nelas e elas neles, arrastando voz e corpo
e um novo entendimento para tudo. repito: isto é
válido. para tudo. a vida anda aí em queda-livre
dentro de nós, procurando um lugar para sair,
para encontrar a compreensão das coisas,
mais um motivo para acordar amanhã. queremos
mais, sempre, é a frase fácil para esta situação.
para explicar a ânsia de tudo, pessoas e coisas
e experiências e motivos para melhorar a relação
com o mundo. para conseguir finalmente falar e ser
compreendido. para conseguir tocar tudo o que ilude
e rodeia. para saber, por um momento, que há outra
pessoa que compreende a solidão imensa dos desertos
interiores; que sendo únicos, somos todos feitos da mesma
primordial merda e sentimos muito por não conseguir
compreender nunca o que vai do outro lado, se fomos
compreendidos em nos fazer entender. por isto tudo,
sendo uma indústria produtiva ou não, os investimentos
sucedem-se em busca de uma pequena parcela,
uma quota na indústria de transformação do eu em nós.
pessoalmente, sonho ser, desde pequeno.
22 março 2011
16 março 2011
Apenas mais uma palavra
não quero escrever mais. não me apetece.
não tenho a quem ou razão para escrever,
mas aparecem palavras alinhadas, palavras
sombra. mas é verdade… não há destinatário
à mensagem que transmito, aos contos contados,
às horas perdidas contando os dedos do ritmo:
esta caverna não devolve os ecos, apenas tolhe
os olhos e os membros caídos ao lado do corpo.
temos todo um mundo-relógio organizado
para nos dizer que está tudo muito mau,
que temos sorte em ter uma vida que gira
em torno do medo: o medo do trabalho, da falta
de trabalho, do pouco dinheiro, do contentarmo-nos
com pouco, com o sabor ácido da liberdade de ser
adulto e responsável e ter uma casa e uma televisão
a quem regressar todos os dias. nada sei dizer
acerca da precisão matemática deste mundo
nem tenho nada a dizer sobre a forma subtil
como nos despimos de humanidade, ou como
vivemos com sonhos possíveis, materiais,
e vamos esquecendo quem fomos, lentamente,
até termos idade para relembrar o que perdemos.
falo para ninguém, porque não falo - ou não me faço
ouvir. posso-vos contar que agora não tenho nada:
o dinheiro no banco, contado a juros para outra vida
que agora não viverei, desapareceu; as mãos,
minhas, agarram-se ao tecido do invisível,
perseguem um sonho há muito tempo. o sonho
comeu-me a vida, queimou-me os olhos e a pele,
fez-me olhar para dentro das coisas e ver que
somos coisas vazias e é no outro-impossível
que nos completamos.. é um círculo que não
se encontra, uma espiral que cai. o regresso,
esse, se acontece, é como se se voltasse outro:
não nos conhecem, esqueceram o nome, o cheiro,
as palavras e a voz que as proferia. coisa em mundo
de coisas. apenas mais uma palavra para definir.
01 março 2011
Estar triste hoje em dia
hoje em dia fazemos tudo para estar tristes
e conformados com a conformidade da desilusão.
nem pensar em sorrir da imensa ironia de tudo isto,
esboçar um sorriso para afrontar os deuses
humanos e mitológicos que nos tentam fazer crer
na infame noção de destino, fado, todas essas coisas
podres e cobardes que usamos para nos esconder
do poder das nossas decisões, da mudança
que é sempre um salto no futuro, sobre o vazio
que se tenta preencher. para que precisamos
de tanta dor, de cinemas cheios de sangue e terroristas
e sexo violento ou de pálidas imitações de amor
cor-de-rosinha e leve e jovem, fresco, e sem conteúdo
- não há como apagar esta sede de confronto
com o fim violento do mundo às possíveis mãos
de terroristas devidamente armados de toalhas
ou de vizinhos parvos armados em vigilantes da moral
e bons costumes passageiros. vivo e estou vivo
neste mundo sem deuses e com cada vez menos pessoas,
sou sozinho para além de dois círculos, e como todos
não faço ideia porque estou aqui. depois de tudo
o que perdi, de tudo o que ganhei e aprendi, sou
outra pessoa, o mesmo, outro-melhor-em-mim.
e tento ser assim ou de outra forma ou como seja,
mas ser e saber sorrir, encontrar pequenas coisas,
uma vírgula a mais, um erro, um esquecimento,
mais um traço da imperfeição que nos une a todos
nesta imensa tristeza de não ser o que há de melhor
no outro, na outra pele tão fácil e sempre mais perfeita,
uma cicatriz para onde se olha e se esquece a cura.
e conformados com a conformidade da desilusão.
nem pensar em sorrir da imensa ironia de tudo isto,
esboçar um sorriso para afrontar os deuses
humanos e mitológicos que nos tentam fazer crer
na infame noção de destino, fado, todas essas coisas
podres e cobardes que usamos para nos esconder
do poder das nossas decisões, da mudança
que é sempre um salto no futuro, sobre o vazio
que se tenta preencher. para que precisamos
de tanta dor, de cinemas cheios de sangue e terroristas
e sexo violento ou de pálidas imitações de amor
cor-de-rosinha e leve e jovem, fresco, e sem conteúdo
- não há como apagar esta sede de confronto
com o fim violento do mundo às possíveis mãos
de terroristas devidamente armados de toalhas
ou de vizinhos parvos armados em vigilantes da moral
e bons costumes passageiros. vivo e estou vivo
neste mundo sem deuses e com cada vez menos pessoas,
sou sozinho para além de dois círculos, e como todos
não faço ideia porque estou aqui. depois de tudo
o que perdi, de tudo o que ganhei e aprendi, sou
outra pessoa, o mesmo, outro-melhor-em-mim.
e tento ser assim ou de outra forma ou como seja,
mas ser e saber sorrir, encontrar pequenas coisas,
uma vírgula a mais, um erro, um esquecimento,
mais um traço da imperfeição que nos une a todos
nesta imensa tristeza de não ser o que há de melhor
no outro, na outra pele tão fácil e sempre mais perfeita,
uma cicatriz para onde se olha e se esquece a cura.
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