11 abril 2011

Sem estar

estes cobertores cheiram a sexo e insónia
e estão aqui
caídos e frios sobre o chão que não ecoa
passos ou peles que se encontram. A
insónia torna-se habitual; habitual também
a incompreensão que contorna as formas
das coisas, das pessoas; comum a impossível
comunicação com o resto - noves fora nada
na regra dos três simples da noite e ficamos 
com uma garrafa vazia como companhia. 
o que fazer quando formos demasiado 
velhos para ser agradáveis ou excitantes? 
o que poderemos fazer para matar as horas
da nossa morte? já passou tanto tempo
desde que esta cama sentiu a agitação
do amor, desde que dois corpos a ocuparam
tremendo um no outro, reencontrando a pureza 
assexuada do primeiro encontro. acabo sempre
por aqui, por esta zona de conforto relativo
e relembro outras peles, confusas sob o pó 
dos anos, pessoas que se escondiam sob elas 
e a aspereza do tacto - e perdido está
o que nunca se teve: minutos de carne,
permanência de anos. entretanto, enquanto
o dia não chega e a insónia permanece,
resta observar o mundo de fora,
sem fazer parte das coisas, ver a manhã
chegar como se o dia não nos dissesse 
respeito, como se não fossemos estar nele.

01 abril 2011

O fantasma

um dia serei o fantasma no teu ombro
e reencontrarás o reconforto dos cheiros
e a beleza dos dias, a força na voz. 
não saberás porquê, de onde vem aquela
voz que ouves, a respiração que pressentes
e te acompanha entre os vagabundos e o lixo
que se escondem nos bairros ricos da cidade,
entre os ecos fracos do amor. vês, somos feitos
do fumo que respiramos, temos carne no lugar
dos sentimentos transitórios e nenhuma forma 
de definir as confusões interiores pensadas
entre os silêncios das conversas. Anoitece,
todos os dias, da mesma forma lenta 
e as pessoas regressam a casa ou perdem-se
nas ruas sem nada para fazer, caçando
o refugo e a esmola distraída dos fatos,
matando o excesso de tempo e de tristeza
entre copos de vinho barato, cigarros 
deprimidos e gritos de revolta impotente.
somos velhos, ficamos velhos, nascemos 
velhos demasiado rápido, apressados 
em passar leves e inócuos dentro da vida
- é isto que dizem enquanto gritam caralho
para isto!, para esta merda em que nos meteram!
puta que os pariu a todos! - e acendem outro.
as mesmas insignificâncias repetidas dia sim, 
dia não, sentindo o peso da tristeza na carteira
e as possibilidades práticas da mesma. 
quando chegar o dia, espero ter algo melhor
para te mostrar do que este quotidiano, cidade
magra de granito e perene podridão; tristeza 
pesada de luto e perda, preocupações de cêntimos.
espero explicar-te a praia e o frio do mar, a agitação 
dos peixes,
o vazio interior do contentamento despreocupado.

algo melhor, noutro dia, talvez...


30 março 2011

Esta cidade

"o que me magoou mais não foi ter perdido, mas sentir que desiludi toda a gente"

soldado desconhecido


esta cidade tem a medida exacta 
para desaparecermos nela, sem 
deixar um rasto, uma pegada de baba
no tecido das coisas. organiza-se 
a vida, novamente, noutro lugar
e reencontram-se as rotinas 
da felicidade. estes tempos,
tempos de crise, tempos de nada,
tempos de sonhos arruinados e
esperanças perdidas e protestos
encomendados pelas empresas
e estados contra os quais se protesta,
não trazem nada: são flores de ausência.

28 março 2011

Cântico

Não consentir a fórmula
Não produzir nenhuma
Nunca pisar os calos
Não desmanchar a cama
Dos sonhos necessários
Não lançar mais tinta
Sobre a mesma tela
Volvidos tantos anos –
Não deixar de beber
O vinho da esperança
Dizer dizer tudo
Dizer quase tudo
Em palavras sem jaça
E um amor sem limites
Por todos por tudo

- Alberto de Lacerda
in Oferenda I, Imprensa Nacional

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25 março 2011

Mais um

"some are born to sweet delight/some are born to the endless night"

the doors, end of the night

sim, é assim em traços largos e pouco coloridos.
se a delícia é um bem, segundo as leis económicas
é normal que não haja suficiente para todos. como 
sempre, é uma questão de localização, acesso,
investimento em factores desmultiplicadores
de bens em produtos ou vice-versa.
para uns o amor, para outros as outras coisas,
o que importa é continuar a procurar, a investir
noutros valores até encontrar uma felicidade 
possível, sempre breve demais. se hoje nos 
desiludimos, amanhã pode ser que os sonhos
sejam verdade ou outra coisa qualquer sem nome,
algo intermédio como todas as nossas considerações.
vejamos: falta sempre a coragem para a primeira 
palavra, para o primeiro gesto - de tantas montras 
que olhamos, deixamos de saber como falar,
como entrar pelos olhos do outro dentro. ainda…
para já ainda é difícil comprar pessoas. há quem
não esteja aberto para transacções comerciais;
há quem não tenha o preço à vista; há quem 
não tenha prazer no negócio. de resto, é um processo
como outro qualquer. daquela subtil economia, desta
descrição desiludida, daquele processo físico-químico
que leva da impressão à expressão carnal do prazer
ou desilusão, o tempo é relativo, contudo previsto
por uma fórmula matemática que não vou explicar 
porque é totalmente irrelevante para a compreensão 
impírica das coisas. acontecem - apenas - eles e elas,
eles nelas e elas neles, arrastando voz e corpo 
e um novo entendimento para tudo. repito: isto é
válido. para tudo. a vida anda aí em queda-livre
dentro de nós, procurando um lugar para sair,
para encontrar a compreensão das coisas,
mais um motivo para acordar amanhã. queremos
mais, sempre, é a frase fácil para esta situação.
para explicar a ânsia de tudo, pessoas e coisas 
e experiências e motivos para melhorar a relação 
com o mundo. para conseguir finalmente falar e ser 
compreendido. para conseguir tocar tudo o que ilude 
e rodeia. para saber, por um momento, que há outra
pessoa que compreende a solidão imensa dos desertos
interiores; que sendo únicos, somos todos feitos da mesma
primordial merda e sentimos muito por não conseguir 
compreender nunca o que vai do outro lado, se fomos
compreendidos em nos fazer entender. por isto tudo,
sendo uma indústria produtiva ou não, os investimentos
sucedem-se em busca de uma pequena parcela, 
uma quota na indústria de transformação do eu em nós.
pessoalmente, sonho ser, desde pequeno.