um dia serei o fantasma no teu ombro
e reencontrarás o reconforto dos cheiros
e a beleza dos dias, a força na voz.
não saberás porquê, de onde vem aquela
voz que ouves, a respiração que pressentes
e te acompanha entre os vagabundos e o lixo
que se escondem nos bairros ricos da cidade,
entre os ecos fracos do amor. vês, somos feitos
do fumo que respiramos, temos carne no lugar
dos sentimentos transitórios e nenhuma forma
de definir as confusões interiores pensadas
entre os silêncios das conversas. Anoitece,
todos os dias, da mesma forma lenta
e as pessoas regressam a casa ou perdem-se
nas ruas sem nada para fazer, caçando
o refugo e a esmola distraída dos fatos,
matando o excesso de tempo e de tristeza
entre copos de vinho barato, cigarros
deprimidos e gritos de revolta impotente.
somos velhos, ficamos velhos, nascemos
velhos demasiado rápido, apressados
em passar leves e inócuos dentro da vida
- é isto que dizem enquanto gritam caralho
para isto!, para esta merda em que nos meteram!
puta que os pariu a todos! - e acendem outro.
as mesmas insignificâncias repetidas dia sim,
dia não, sentindo o peso da tristeza na carteira
e as possibilidades práticas da mesma.
quando chegar o dia, espero ter algo melhor
para te mostrar do que este quotidiano, cidade
magra de granito e perene podridão; tristeza
pesada de luto e perda, preocupações de cêntimos.
espero explicar-te a praia e o frio do mar, a agitação
dos peixes,
o vazio interior do contentamento despreocupado.
algo melhor, noutro dia, talvez...