entretenho-me rearranjando as grelhas do real,
reconsidero conceitos, significados, significações
repassando pela beleza do nada e a sua perfeita
inutilidade. temos tudo, não há como fugir
a infelicidade de não saber o que desejar,
ou desejar tudo o que não se pode ter
sendo um perfeito desconhecido para quem se é.
não, já não sei… escrever, falar, comunicar
ao sentido sentimento das coisas-pessoas,
coisas, pessoas que se entrecortam e confundem,
aos pedações dentro de mim, no sólido que sou.
passo os dias em silêncio, batendo teclas
tentando aproximar-me da realidade
desconhecida. o outro permanece sempre: ilusão,
esfinge,
desafio simples, parte desconhecida de mim,
comboio inalcançável de sensações, de toque
e sentido e realidade quente e carnal.
são poucos os dias em que me vejo, desci
os espelhos das paredes, revejo-me nas pessoas
que conheço e na fotografia, no domínio amador da luz
e não sei ainda quem sou, quem quero ser,
como devo ser para toda a gente me amar.
afinal de contas, preciso de atenção, de ser a vibração
que te excita o que resta do teu corpo mastigado
352 vezes, cuspido e mutilado outras tantas.
um dia as coisas foram diferentes, nem melhores
nem piores, diferentes apenas. as palavras
tinham textura, um corpo, um significado óbvio
atrás da tinta e as fotografias não eram apenas
frequências tornadas reais no papel, bisturi
da insensatez da realidade. não compreendia
nada com aquela capacidade de explicar
o que tudo é, mas intuía a relação óbvia,
a unidade entre "eu" e mundo. ainda comia
maõs-cheias de terra e brincava com os vermes
- antes de os substituir pelo sexo - e era impossível
que algo como o mundo pegasse fogo.
agora não.