04 junho 2011

Mármore

Não sei o que é ser pobre, daqueles
que têm apenas quatro canais 
de sobrevivência: a minha tv está ali,
desligada; é fraco alimento para mim
e as minhas insónias. Sei, contudo, 
o que é ser pobre, daqueles, de espírito
e bolso completo; daqueles que estão
horas a debitar histórias em que são 
o motivo, participante e protagonista 
como se todo o mundo fosse pequeno 
e contido no seu umbigo. Compreendo
o porquê, lamento as razões, tento rir-me
de tudo e ler um livro. Compreender as 
cínicas razões pelas quais não consigo 
dormir, nem sentir algo mais que isto, frio.

03 junho 2011

Formas

entretenho-me rearranjando as grelhas do real,
reconsidero conceitos, significados, significações
repassando pela beleza do nada e a sua perfeita
inutilidade. temos tudo, não há como fugir 
a infelicidade de não saber o que desejar,
ou desejar tudo o que não se pode ter
sendo um perfeito desconhecido para quem se é.
não, já não sei… escrever, falar, comunicar
ao sentido sentimento das coisas-pessoas,
coisas, pessoas que se entrecortam e confundem,
aos pedações dentro de mim, no sólido que sou.
passo os dias em silêncio, batendo teclas
tentando aproximar-me da realidade 
desconhecida. o outro permanece sempre: ilusão,
esfinge,
desafio simples, parte desconhecida de mim,
comboio inalcançável de sensações, de toque
e sentido e realidade quente e carnal.
são poucos os dias em que me vejo, desci
os espelhos das paredes, revejo-me nas pessoas
que conheço e na fotografia, no domínio amador da luz
e não sei ainda quem sou, quem quero ser, 
como devo ser para toda a gente me amar.
afinal de contas, preciso de atenção, de ser a vibração
que te excita o que resta do teu corpo mastigado
352 vezes, cuspido e mutilado outras tantas.
um dia as coisas foram diferentes, nem melhores
nem piores, diferentes apenas. as palavras 
tinham textura, um corpo, um significado óbvio
atrás da tinta e as fotografias não eram apenas
frequências tornadas reais no papel, bisturi 
da insensatez da realidade. não compreendia
nada com aquela capacidade de explicar 
o que tudo é, mas intuía a relação óbvia,
a unidade entre "eu" e mundo. ainda comia 
maõs-cheias de terra e brincava com os vermes
- antes de os substituir pelo sexo - e era impossível
que algo como o mundo pegasse fogo. 
agora não.

09 maio 2011

Os poetas

para o Ricardo Álvaro

Fevereiro de 2011: fiquei a saber,
por uma revista de merda, que
«os poetas não são tipos normais»
(vinha na capa da tal revista).

É um bocadinho discutível;
os poetas fodem, cagam,
gostam ou não gostam
de francesinhas e marujos.
Têm, como toda a gente, de vigiar
o colesterol e de pagar impostos.

Porém, e antes mesmo de haver verbo,
há poetas e puetas. Há-os
gestores, contentinhos, polivalentes
- assim como os há revoltados,
insubmissos, crus e sem saída.

Uns acreditam nas palavras,
outros calam-se. Uns ministros,
outros deputados, mas capazes
(quase todos) de prefaciar mendigos
que olharam de frente o sol.

Os poetas morrem - e isso,
à falta de melhor, torna-os bastante normais.

- Manuel de Freitas
in P2, suplemento do Público - 7.05.2011

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29 abril 2011

Dois executivos sentados numa mesa do Candelabro

Apesar de jovens, há todo um peso
maior que o tempo sobre eles
e os seus fatos
e as suas camisas 
e os seus telemóveis 
e o seu tédio.
Sentados na mesa do canto, 
à esquerda de quem entra, 
entre luz e sombra matemática
quadriculada, bebem duas águas
long drink, gelo e limão. Olhos,
se os têm, estão colados aos ecrãs
dos telefones, banho de luz, imitação
de talho nos seus rostos. Não trocam
palavra, não falam, não se olham
- estão sós em si, um no outro, entre
todos e agarram-se desesperados 
a farrapos de conversa, apontam
os dedos em breves comentários, 
trocam três palavras de cinza e nada.
Olho-os. Olho o papel. Desapareceram.
Sombras rápidas. Bons empregados.
Homens perfeitos deste novo mundo.

28 abril 2011

903 para a praia

a vergonha apanhou o 903 para a praia
e deixou para trás a noite e o álcool 
e esta imensa vontade de derreter 
esta pele, os olhares afiados dos betos
e a minha falta de dinheiro crónica.
que doença esta - e estes dias e este…
filtro entre os sentidos do entendimento
e a compreensão cerebral das coisas 
- turvo, como um mau vinho que corre 
pela curva do copo e mancha a toalha,
assim corro eu pelas costas da cidade
com o peso de todas as coisas nas costas.
sísífo de um cartão miserável, habituei-me 
a ver nas luzes dos candeeiros o sol
das minhas três da tarde madrugadoras,
o castigo por anos perdidos e tempo perdido
com pessoas e coisas e o amor e a entrega
e todas as coisas outra vez até tudo isto
significar um nada rigoroso - porque deixou
de existir, porque se condensou num nódulo
de carne no fundo de mim, longe 
da consciência da morte e da passagem.
cagar para tudo isto, meter a merda no poema
como uma espinha num rosto belo 
ou qualquer outra pedra na engrenagem:
o importante é meter a mão no bolso 
do mundo, por estes segundos breves,
e roubar-lhe uma mão cheia de oportunidades,
recuperar as esperanças que a vida roubou,
o brilho real do olhar e da novidade do futuro,
e ter 100 anos de perdão pelo furto.

23 abril 2011

Não procures mais o teu caderno de geografia

Não procures mais o teu caderno de geografia.
Eu tirei-o da tua mochila.
Não quiseste ir à matiné comigo,
no domingo passado.
Os meus amigos contaram-me
que estavas acompanhada pelo Bermudez,
o grandalhão que pratica luta livre.
Contaram-me que estavas muito linda,
e que te rias a cada segundo.
Não procures mais o teu caderno de geografia
Agora que está a chover,
aproxima-te da janela,
e verás passar oitenta barquitos de papel
Não procures mais o teu caderno de geografia.

- Jairo Aníbal Niño
in A alegria de gostar, Boca

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