17 junho 2011
14 junho 2011
Aljustrel
deitado finalmente, olhos fechados,
imaginação à solta nas aranhas
saídas das sombras da noite para
se alimentarem de nós. é assim
que durmo hoje. alentejo de novo.
desta vez sem família nem amor,
só com amigos, músicos, música e calor.
viagem confortável e rápida, sem gastar
um cêntimo, excepto nos roubos que
são as paragens de serviço onde
empregados deprimidos nos servem
o nosso próprio sangue em cafés aguados
e chávenas de limpeza duvidosa. depois
paisagem rotativa e fantasmas de outras vidas
nos carros que passam, vislumbres
de um rosto mais que familiar e perdido,
liquefeito pela velocidade e impossível
de alguma vez voltar. sol pelos vidros,
queimados os braços pela sonolência
dos membros e a incerteza do espaço;
não-lugar, momento passageiro na confusão
entre tempo e espaço, entre o espaço de estar
e o tempo de ser algo mais do que aquilo
que nos permitem. rolamos na vertigem e,
hoje,
temos um destino definido pelas obrigações,
vila mineira morta, montes vazios por dentro,
arqueologia de mãos rudes que medem as forças
da terra e dos animais. animamos a viagem
com as conversas possíveis, mas sabemos todos
que entre os sorrisos e os olhares nos espreita
o silêncio e a responsabilidade pesa, imenso,
sobre tudo o que temos para fazer. ainda assim
é sempre esta mesma loucura quando deixo
a mente rolar livre nas faixas do pensamento.
não sei se te procuro ou te encontro ou se me perco
nas possibilidades esquecidas, nos fragmentos
do que ainda sei sobre quem és e o que fazes;
sei que isso pouco importa: a vida avançou
como esta estrada e agora somos outros
- perseguir-te é o mesmo que tentar agarrar
um fantasma ou fixar a imaginação. as viagens
agora são outras, outros os companheiros
e imensos os espaços. não te encontrarei
em aljustrel, não sei quem és para te agarrar
pelo braço e dizer olá! por aqui? a verdade é que
vamos todos a caminho de lugares diferentes
e agora temos idade para saber que o importante
mesmo é chegar onde se quer, como se quer.
tudo o resto são circunstâncias organizáveis,
arrastadas pela circulação do ar dentro do veículo.
07 junho 2011
04 junho 2011
Mármore
Não sei o que é ser pobre, daqueles
que têm apenas quatro canais
de sobrevivência: a minha tv está ali,
desligada; é fraco alimento para mim
e as minhas insónias. Sei, contudo,
o que é ser pobre, daqueles, de espírito
e bolso completo; daqueles que estão
horas a debitar histórias em que são
o motivo, participante e protagonista
como se todo o mundo fosse pequeno
e contido no seu umbigo. Compreendo
o porquê, lamento as razões, tento rir-me
de tudo e ler um livro. Compreender as
cínicas razões pelas quais não consigo
dormir, nem sentir algo mais que isto, frio.
03 junho 2011
Formas
entretenho-me rearranjando as grelhas do real,
reconsidero conceitos, significados, significações
repassando pela beleza do nada e a sua perfeita
inutilidade. temos tudo, não há como fugir
a infelicidade de não saber o que desejar,
ou desejar tudo o que não se pode ter
sendo um perfeito desconhecido para quem se é.
não, já não sei… escrever, falar, comunicar
ao sentido sentimento das coisas-pessoas,
coisas, pessoas que se entrecortam e confundem,
aos pedações dentro de mim, no sólido que sou.
passo os dias em silêncio, batendo teclas
tentando aproximar-me da realidade
desconhecida. o outro permanece sempre: ilusão,
esfinge,
desafio simples, parte desconhecida de mim,
comboio inalcançável de sensações, de toque
e sentido e realidade quente e carnal.
são poucos os dias em que me vejo, desci
os espelhos das paredes, revejo-me nas pessoas
que conheço e na fotografia, no domínio amador da luz
e não sei ainda quem sou, quem quero ser,
como devo ser para toda a gente me amar.
afinal de contas, preciso de atenção, de ser a vibração
que te excita o que resta do teu corpo mastigado
352 vezes, cuspido e mutilado outras tantas.
um dia as coisas foram diferentes, nem melhores
nem piores, diferentes apenas. as palavras
tinham textura, um corpo, um significado óbvio
atrás da tinta e as fotografias não eram apenas
frequências tornadas reais no papel, bisturi
da insensatez da realidade. não compreendia
nada com aquela capacidade de explicar
o que tudo é, mas intuía a relação óbvia,
a unidade entre "eu" e mundo. ainda comia
maõs-cheias de terra e brincava com os vermes
- antes de os substituir pelo sexo - e era impossível
que algo como o mundo pegasse fogo.
agora não.
09 maio 2011
Os poetas
para o Ricardo Álvaro
Fevereiro de 2011: fiquei a saber,
por uma revista de merda, que
«os poetas não são tipos normais»
(vinha na capa da tal revista).
É um bocadinho discutível;
os poetas fodem, cagam,
gostam ou não gostam
de francesinhas e marujos.
Têm, como toda a gente, de vigiar
o colesterol e de pagar impostos.
Porém, e antes mesmo de haver verbo,
há poetas e puetas. Há-os
gestores, contentinhos, polivalentes
- assim como os há revoltados,
insubmissos, crus e sem saída.
Uns acreditam nas palavras,
outros calam-se. Uns ministros,
outros deputados, mas capazes
(quase todos) de prefaciar mendigos
que olharam de frente o sol.
Os poetas morrem - e isso,
à falta de melhor, torna-os bastante normais.
- Manuel de Freitas
in P2, suplemento do Público - 7.05.2011
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29 abril 2011
Dois executivos sentados numa mesa do Candelabro
Apesar de jovens, há todo um peso
maior que o tempo sobre eles
e os seus fatos
e as suas camisas
e os seus telemóveis
e o seu tédio.
Sentados na mesa do canto,
à esquerda de quem entra,
entre luz e sombra matemática
quadriculada, bebem duas águas
long drink, gelo e limão. Olhos,
se os têm, estão colados aos ecrãs
dos telefones, banho de luz, imitação
de talho nos seus rostos. Não trocam
palavra, não falam, não se olham
- estão sós em si, um no outro, entre
todos e agarram-se desesperados
a farrapos de conversa, apontam
os dedos em breves comentários,
trocam três palavras de cinza e nada.
Olho-os. Olho o papel. Desapareceram.
Sombras rápidas. Bons empregados.
Homens perfeitos deste novo mundo.
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