28 agosto 2011

Chats


vivemos dentro de caixas… digitais e invisíveis.
existimos como animais de circo a quem é dado
o poder de escolher em que direcção quer ir dentro 
de linhas pré-definidas: direita. esquerda. frente.
por vezes demasiado para trás, em direcção 
desconhecida. é sempre de noite aqui e agarramos
os sexos para esquecer a tristeza dos dias, para ter
um pouco de calor conhecido e contacto humano
quando a solidão se aperta à volta dos dentes
e não se sente o sabor de mais nada. quanto somos
nestas sombras a excitar-nos com imagens falsas
que representam apenas impotentes fantasias 
de hipóteses que se perderam, calor feito carne,
a hipótese fugaz de, por uma vez, conseguir silenciar
os gritos, o tremor do medo, a noite vazia, 
as mãos que se distendem em busca de outras
e nunca encontram nada para além de bytes
- que de forma alguma trazem calma.

09 agosto 2011

"As individuals they have been busted, excluded and defeated in so many ways that they are not about to be polite or careful in the one area where they have an edge."

Hells Angels, Hunter S. Thompson

08 agosto 2011

Actividades não-sexuais

Deviam inventar um cartão
Para as actividades não-sexuais;
A tudo o que mate o desejo
E o prazer do momento, do ajuste,
Da procura do aperfeiçoamento
Da escultura do tacto. Como no futebol
dois cartões implicavam a expulsão
para longe de quem quer viver livre.
Já há demasiado tempo perdido 
e controlo assumido nos dias para perder 
nisso as noites e os corpos. Alem do mais, 
a economia de tudo, hoje, já nos permite pouca 
expressão, poucas palavras, nenhum gesto 
que não seja filho de uma taxa. A cor do cartão 
é irrisória; o seu tamanho indiferente. 
O que importa é que consiga parar 
(antes de acontecer) 
A ditadura dos corpos estranhos sobre
A possibilidade da expressão pessoal,
Sobre a tela da pele e da sensibilidade.

06 agosto 2011

Passeio de domingo

é verdade, cá estou eu novamente, 
repetindo os movimentos de anos, 
a depressão de outros. foz, palmeiras,
este cais de embarque ou observação
aparentemente real e que nunca abraçou 
um navio, onde burgueses nunca embarcaram
em direcção a uma vida melhor; estou
aquí, estacionado no passeio, vendo 
os faróis como quem espera algo melhor,
horrorizado porque não consigo pensar
em nada para ocupar as 24 horas do dia
de amanhã. segunda-feira, o que fazer?
como dei à costa a este naufrágio?
continuar vivo, acreditar que serão estas
vinte e quatro horas (por extenso) as reais, 
as salvadoras para a navegação entre balizas
invisíveis, fúteis. a verdade é que esta solidão 
é um cancro, uma coisa viva que cresce 
e se alimenta de nós, de tudo o que fazemos 
para nos aproximar da vida que nos ilude, 
do trabalho que falha, dos que nos rodeiam 
igualmente sós, como cada um de nós está, 
todos os dias. sem nome, é o que somos,
apenas mais uma partícula menos fina agarrada
à terra, à vida, ao canto que encontramos 
no mundo que nos rodeia e sofoca a cada domingo.

14 junho 2011

Aljustrel

deitado finalmente, olhos fechados,
imaginação à solta nas aranhas 
saídas das sombras da noite para 
se alimentarem de nós. é assim 
que durmo hoje. alentejo de novo.
desta vez sem família nem amor,
só com amigos, músicos, música e calor.
viagem confortável e rápida, sem gastar
um cêntimo, excepto nos roubos que
são as paragens de serviço onde 
empregados deprimidos nos servem 
o nosso próprio sangue em cafés aguados
e chávenas de limpeza duvidosa. depois
paisagem rotativa e fantasmas de outras vidas
nos carros que passam, vislumbres
de um rosto mais que familiar e perdido,
liquefeito pela velocidade e impossível
de alguma vez voltar. sol pelos vidros, 
queimados os braços pela sonolência
dos membros e a incerteza do espaço;
não-lugar, momento passageiro na confusão
entre tempo e espaço, entre o espaço de estar
e o tempo de ser algo mais do que aquilo
que nos permitem. rolamos na vertigem e,
hoje,
temos um destino definido pelas obrigações,
vila mineira morta, montes vazios por dentro,
arqueologia de mãos rudes que medem as forças
da terra e dos animais. animamos a viagem 
com as conversas possíveis, mas sabemos todos
que entre os sorrisos e os olhares nos espreita
o silêncio e a responsabilidade pesa, imenso, 
sobre tudo o que temos para fazer. ainda assim
é sempre esta mesma loucura quando deixo 
a mente rolar livre nas faixas do pensamento. 
não sei se te procuro ou te encontro ou se me perco
nas possibilidades esquecidas, nos fragmentos
do que ainda sei sobre quem és e o que fazes;
sei que isso pouco importa: a vida avançou 
como esta estrada e agora somos outros
- perseguir-te é o mesmo que tentar agarrar 
um fantasma ou fixar a imaginação. as viagens 
agora são outras, outros os companheiros 
e imensos os espaços. não te encontrarei 
em aljustrel, não sei quem és para te agarrar 
pelo braço e dizer olá! por aqui? a verdade é que
vamos todos a caminho de lugares diferentes 
e agora temos idade para saber que o importante
mesmo é chegar onde se quer, como se quer.
tudo o resto são circunstâncias organizáveis,
arrastadas pela circulação do ar dentro do veículo.

07 junho 2011

"For to go as a passenger you must needs have a purse, and a purse is but a rag unless you have something in it."

Melville, Herman "Moby Dick"