faço parte dessa raça de cobardes que levam os sonhos
às costas. os artistas, com fama ou não, são criaturas
desprezíveis: comem o seu peso em papel e carne
e vomitam sobre os sapatos das pessoas respeitáveis
e trabalhadoras o tédio das suas observações. plantam-se
às janelas de restaurantes chiques na baixa pensando
como seria comer ali, muito, caro e bem, e depois, durante
o cigarro, soltar gases discretos entre as pessoas de bem
- e esperar que estes não sejam excessivamente ruidosos.
cheiram mal, suam e alimentam-se apenas de sopas roubadas
aos pobres porque, deles, dos artistas, emana a riqueza
intelectual, a única verdadeira e apressadamente fodida no cu
em qualquer banco de jardim fora do olhar próximo.
para além disto, usam óculos (eu não, mas devia), mas
agora que eles estão na moda deixaram de usar;
trocaram-nos por um telemóvel com bloco de notas,
câmara fotográfica 5 mpx, internet para procurar palavras
e conceitos perdidos e enxovalhados na algibeira do tempo
- e aplicações, mais e outras, para a sua imensa inutilidade
e falta de talento. os sonhos são coisas belas, mas chega
o dia em que é impossível não acordar, não sentir os dentes
do tempo mordendo os calcanhares como um cão vadio
e raivoso; em que é impossível não experimentar na carne
o fracasso e o erro e a tentativa e o erro e a tentativa
da tentativa do último erro que nunca se pôde cometer;
em que é impossível não sentir fome e ter o bolso vazio
e ter de voltar sempre e sempre ao mesmo momento,
às mesmas mãos estendidas, às mesmas oportunidades
repetidas, a compreensão do sangue e a sua eterna paciência.
os artistas com dinheiro, esses, também fazem tudo isto,
mas de formas absurdamente mais discretas e rentáveis.