06 setembro 2011

Os artistas


faço parte dessa raça de cobardes que levam os sonhos
às costas. os artistas, com fama ou não, são criaturas 
desprezíveis: comem o seu peso em papel e carne
e vomitam sobre os sapatos das pessoas respeitáveis
e trabalhadoras o tédio das suas observações. plantam-se
às janelas de restaurantes chiques na baixa pensando 
como seria comer ali, muito, caro e bem, e depois, durante 
o cigarro, soltar gases discretos entre as pessoas de bem
- e esperar que estes não sejam excessivamente ruidosos.
cheiram mal, suam e alimentam-se apenas de sopas roubadas
aos pobres porque, deles, dos artistas, emana a riqueza 
intelectual, a única verdadeira e apressadamente fodida no cu
em qualquer banco de jardim fora do olhar próximo.
para além disto, usam óculos (eu não, mas devia), mas
agora que eles estão na moda deixaram de usar; 
trocaram-nos por um telemóvel com bloco de notas, 
câmara fotográfica 5 mpx, internet para procurar palavras
e conceitos perdidos e enxovalhados na algibeira do tempo
- e aplicações, mais e outras, para a sua imensa inutilidade 
e falta de talento. os sonhos são coisas belas, mas chega 
o dia em que é impossível não acordar, não sentir os dentes
do tempo mordendo os calcanhares como um cão vadio
e raivoso; em que é impossível não experimentar na carne
o fracasso e o erro e a tentativa e o erro e a tentativa 
da tentativa do último erro que nunca se pôde cometer; 
em que é impossível não sentir fome e ter o bolso vazio
e ter de voltar sempre e sempre ao mesmo momento, 
às mesmas mãos estendidas, às mesmas oportunidades
repetidas, a compreensão do sangue e a sua eterna paciência.
os artistas com dinheiro, esses, também fazem tudo isto,
mas de formas absurdamente mais discretas e rentáveis.

01 setembro 2011

Duras como espelhos


Não sei para onde foram as palavras
onde aprisionava o mundo. Das mãos
fugitivas furtaram-se; na boca, secaram 
entre as dunas da língua, as montanhas
afiadas dos dentes; da mente, escondem-se
sem dificuldades, como crianças jogando
um jogo sem vontade, apenas para passar
o tempo, para ir daqui para ali sem propósito.
São tempos duros estes, em que lentamente
deixamos de ser, nos transformamos em sal
silencioso, sem significado maior para atribuir
aos objectos que nos rodeiam. Vendo bem, 
é isto que temos: coisas para definir; objectos
para renomear, referencias nada subtis do mundo
- e, para isto, as palavras que nos restam servem 
perfeitamente, planas e frágeis como sempre foram.
Quanto ao que se perdeu, não escondem nada:
são duras como espelhos.

28 agosto 2011

Chats


vivemos dentro de caixas… digitais e invisíveis.
existimos como animais de circo a quem é dado
o poder de escolher em que direcção quer ir dentro 
de linhas pré-definidas: direita. esquerda. frente.
por vezes demasiado para trás, em direcção 
desconhecida. é sempre de noite aqui e agarramos
os sexos para esquecer a tristeza dos dias, para ter
um pouco de calor conhecido e contacto humano
quando a solidão se aperta à volta dos dentes
e não se sente o sabor de mais nada. quanto somos
nestas sombras a excitar-nos com imagens falsas
que representam apenas impotentes fantasias 
de hipóteses que se perderam, calor feito carne,
a hipótese fugaz de, por uma vez, conseguir silenciar
os gritos, o tremor do medo, a noite vazia, 
as mãos que se distendem em busca de outras
e nunca encontram nada para além de bytes
- que de forma alguma trazem calma.

09 agosto 2011

"As individuals they have been busted, excluded and defeated in so many ways that they are not about to be polite or careful in the one area where they have an edge."

Hells Angels, Hunter S. Thompson

08 agosto 2011

Actividades não-sexuais

Deviam inventar um cartão
Para as actividades não-sexuais;
A tudo o que mate o desejo
E o prazer do momento, do ajuste,
Da procura do aperfeiçoamento
Da escultura do tacto. Como no futebol
dois cartões implicavam a expulsão
para longe de quem quer viver livre.
Já há demasiado tempo perdido 
e controlo assumido nos dias para perder 
nisso as noites e os corpos. Alem do mais, 
a economia de tudo, hoje, já nos permite pouca 
expressão, poucas palavras, nenhum gesto 
que não seja filho de uma taxa. A cor do cartão 
é irrisória; o seu tamanho indiferente. 
O que importa é que consiga parar 
(antes de acontecer) 
A ditadura dos corpos estranhos sobre
A possibilidade da expressão pessoal,
Sobre a tela da pele e da sensibilidade.

06 agosto 2011

Passeio de domingo

é verdade, cá estou eu novamente, 
repetindo os movimentos de anos, 
a depressão de outros. foz, palmeiras,
este cais de embarque ou observação
aparentemente real e que nunca abraçou 
um navio, onde burgueses nunca embarcaram
em direcção a uma vida melhor; estou
aquí, estacionado no passeio, vendo 
os faróis como quem espera algo melhor,
horrorizado porque não consigo pensar
em nada para ocupar as 24 horas do dia
de amanhã. segunda-feira, o que fazer?
como dei à costa a este naufrágio?
continuar vivo, acreditar que serão estas
vinte e quatro horas (por extenso) as reais, 
as salvadoras para a navegação entre balizas
invisíveis, fúteis. a verdade é que esta solidão 
é um cancro, uma coisa viva que cresce 
e se alimenta de nós, de tudo o que fazemos 
para nos aproximar da vida que nos ilude, 
do trabalho que falha, dos que nos rodeiam 
igualmente sós, como cada um de nós está, 
todos os dias. sem nome, é o que somos,
apenas mais uma partícula menos fina agarrada
à terra, à vida, ao canto que encontramos 
no mundo que nos rodeia e sofoca a cada domingo.