20 setembro 2011

Exercício 3: respirar


lembra-te: são dois os gestos que precisas
para continuar vivo. primordiais de tão simples,
emanam do mais profundo do teu cérebro
como um eco dos primeiros gestos da tua 
espécie. encher e esvaziar. encher e esvaziar...
deixar que os ritmos obscuros dos teus sentimentos
os controlem por vezes, sem teres peito para 
suster o ar do suspiro; sem ter força para os encher
quando o mundo cai sobre ti. quando os pensas, 
parecem tornar-se noutra coisa, mais difíceis, 
como se de fora visses os processos internos 
que te controlam: a confusão que trazes escondida,
a dúvida que respirar mantém acordada em ti,
a alegria e a excitação dos olhos abertos, do mundo
que se vê e se pode tocar… e o não-saber, nunca,
mesmo debaixo da cortina da rotina, o que o dia
após este pode trazer. encher e esvaziar, encher
e esvaziar, encher e esvaziar, encher e esvaziar...

Exercício 2: apaixonar


gostava de me apaixonar, mas já não sei 
como é que isso se faz. como se acredita,
como nos deixamos ir em águas cujo fundo
não vemos. como amar as horas de outro?

gostava de me apaixonar, mas já não sei
falar outra língua que não a minha
- e ninguém para explicar o que é isto
que se sente enquanto se respira e pensa.

19 setembro 2011

Exercício 1: acreditar


acreditar é comprometer-me,
perder um pouco mais de liberdade,
reduzir o meu campo de acção,
reorganizar os ponteiros do relógio
pelas horas de outros. 

acreditar é fechar-me em casa,
fechar-me em mim,
fechar-me atrás da câmara, 
fechar-me atrás do computador, 
fechar as minhas mãos
à volta da câmara para o mundo.

acreditar é não ceder, perseguir
- mesmo que seja contra todas
as expectativas e sensatez. 

acreditar é fazer 48 das 24 horas
do dia. acreditar é fazer e fazer
e fazer e fazer e perder e perder
e continuar a acreditar. acreditar
é acreditar, olhos fechados
para o significado real das coisas.

acreditar é acreditar por acreditar,
porque se sente e sabe o que importa.

acreditar é esquecer tudo 
o que se podia estar a fazer 
caso não se acreditasse. 

acreditar é jogar contra probabilidades,
gente, dinheiro, sorte, mundo, merda!
acreditar é uma litania sem sentido!
acreditar faz cair o cabelo!
acreditar é tudo o que nos deixam ter
e tudo o que de mais importante nos tiram!
acreditar é não acreditar nos anúncios,
esquecer o crédito, esquecer os sonhos
plásticos que se podem comprar nas lojas! 
acreditar é ter objectivos que não se encontram
à venda ao público! acreditar é uma coisa 
que não se pode enviar por bluetooth ou e-mail!

acreditar é uma coisa pessoal! acreditar é próprio!
acreditar é solitário! acreditar é triste! acreditar é 
permanecer incompleto, insatisfeito, transitório,
uma mera ligação entre ser e encontrar um significado
para o estar vivo, dia após dia, sem mais artifício.

14 setembro 2011

O insecto


Sinto o insecto a crescer no peito. 
Sobre e dentro da pele.
Alimenta-se de mim. 
Já não sei mais se respiro ou se é ele
que sopra o ar pela minha boca, pelo meu nariz, 
no ritmo 
da inconsciência dos gestos automáticos. 
Não consigo comer.
Não consigo dormir. 
Não consigo 
abraçar ninguém com estes braços
de quitina. Tenho como companhia a tábua-rasa 
da sombra. Ninguém confia num homem 
com um besouro dentro, que cheira a coisas 
mastigadas e a saliva; com ruídos
dentro, com o esgar de dor ocasional 
quando as mandíbulas interiores 
atingem algo
- que não o tecido mole que levamos dentro.

06 setembro 2011

Os artistas


faço parte dessa raça de cobardes que levam os sonhos
às costas. os artistas, com fama ou não, são criaturas 
desprezíveis: comem o seu peso em papel e carne
e vomitam sobre os sapatos das pessoas respeitáveis
e trabalhadoras o tédio das suas observações. plantam-se
às janelas de restaurantes chiques na baixa pensando 
como seria comer ali, muito, caro e bem, e depois, durante 
o cigarro, soltar gases discretos entre as pessoas de bem
- e esperar que estes não sejam excessivamente ruidosos.
cheiram mal, suam e alimentam-se apenas de sopas roubadas
aos pobres porque, deles, dos artistas, emana a riqueza 
intelectual, a única verdadeira e apressadamente fodida no cu
em qualquer banco de jardim fora do olhar próximo.
para além disto, usam óculos (eu não, mas devia), mas
agora que eles estão na moda deixaram de usar; 
trocaram-nos por um telemóvel com bloco de notas, 
câmara fotográfica 5 mpx, internet para procurar palavras
e conceitos perdidos e enxovalhados na algibeira do tempo
- e aplicações, mais e outras, para a sua imensa inutilidade 
e falta de talento. os sonhos são coisas belas, mas chega 
o dia em que é impossível não acordar, não sentir os dentes
do tempo mordendo os calcanhares como um cão vadio
e raivoso; em que é impossível não experimentar na carne
o fracasso e o erro e a tentativa e o erro e a tentativa 
da tentativa do último erro que nunca se pôde cometer; 
em que é impossível não sentir fome e ter o bolso vazio
e ter de voltar sempre e sempre ao mesmo momento, 
às mesmas mãos estendidas, às mesmas oportunidades
repetidas, a compreensão do sangue e a sua eterna paciência.
os artistas com dinheiro, esses, também fazem tudo isto,
mas de formas absurdamente mais discretas e rentáveis.

01 setembro 2011

Duras como espelhos


Não sei para onde foram as palavras
onde aprisionava o mundo. Das mãos
fugitivas furtaram-se; na boca, secaram 
entre as dunas da língua, as montanhas
afiadas dos dentes; da mente, escondem-se
sem dificuldades, como crianças jogando
um jogo sem vontade, apenas para passar
o tempo, para ir daqui para ali sem propósito.
São tempos duros estes, em que lentamente
deixamos de ser, nos transformamos em sal
silencioso, sem significado maior para atribuir
aos objectos que nos rodeiam. Vendo bem, 
é isto que temos: coisas para definir; objectos
para renomear, referencias nada subtis do mundo
- e, para isto, as palavras que nos restam servem 
perfeitamente, planas e frágeis como sempre foram.
Quanto ao que se perdeu, não escondem nada:
são duras como espelhos.

28 agosto 2011

Chats


vivemos dentro de caixas… digitais e invisíveis.
existimos como animais de circo a quem é dado
o poder de escolher em que direcção quer ir dentro 
de linhas pré-definidas: direita. esquerda. frente.
por vezes demasiado para trás, em direcção 
desconhecida. é sempre de noite aqui e agarramos
os sexos para esquecer a tristeza dos dias, para ter
um pouco de calor conhecido e contacto humano
quando a solidão se aperta à volta dos dentes
e não se sente o sabor de mais nada. quanto somos
nestas sombras a excitar-nos com imagens falsas
que representam apenas impotentes fantasias 
de hipóteses que se perderam, calor feito carne,
a hipótese fugaz de, por uma vez, conseguir silenciar
os gritos, o tremor do medo, a noite vazia, 
as mãos que se distendem em busca de outras
e nunca encontram nada para além de bytes
- que de forma alguma trazem calma.