29 setembro 2011

Exercício 5 - perder


já sabia as regras quando comecei sem noção 
o que efectivamente seria aplicado. que leis
ou ordens seriam as que teria de cumprir. 
estamos todos limitados ao mesmo: agir, reagir,
apostar, perder. faz tudo parte do jogo, do sistema.
sem dar conta, vou perdendo o controlo que sabia
exercer na minha vida, na imposição da minha vontade,
o rumo que tinha imprimido à força de mãos e suor.
agora estou perdido no meu espaço, centrifugo,
sem compreender nada, sem encontrar sentido 
nas palavras mais simples, em gestos normais.
mesmo agora enquanto alinho estas letras, 
luto contra o sentido escondido que quero nelas,
luto contra o que quero dizer de mim e não sei
encontrar. perder. o quê, mais? amigos dizem-me
que devia encontrar um ponto positivo em tudo isto,
que estes ciclos negros são etapas que se cumprem
e que depois de tempestades chega sempre a bonança
- e porque penso sempre em chapéus de cowboy
e em longas tardes a preto-e-branco, cactos e tudo?
quanto tempo demoram estes dias? longos, demasiado
cheios de nada e, lugar comum do pó, clichés enormes,
longas, longas tardes em que se luta por encontrar algo 
que preencha as imensas horas do tédio. e o plano,
sempre o plano por cumprir, a perda de tempo plano,
inteiro, contra as engrenagens da sorte, da circunstância.
perder mais dinheiro também, porque qualquer jogo 
exige apostas - e quanto mais quiseres ganhar,
mais terás de perder, de apostar, de perder, apostar
deixando de ser, sendo um peão da sorte, sendo a mão
que faz agarrar o destino que se faz, que lento se constrói. 
já não sei o que fazer mais, mas continuo a fazer algo.
quando não se tem mais nada a perder, o caminho é um,
em frente, em busca do momento circunstancial 
em que tudo fará sentido - para apenas se perder novamente.

22 setembro 2011

Exercício 4: ignorar


Tenho 29 anos e debaixo dos meus pés e ignorância
já atropelei genocídios e guerras e mortes e violência 
e fomes e várias e diferentes pestes e incontáveis mortes
que contam para a forma como a riqueza se distribui, 
sempre pelas mesmas mãos, sempre da mesma forma
hemisférica. Nisto, a economia contraria a gravidade: 
a riqueza sobe. Mas dizia: tenho 29 anos e só consegui
estar vivo até agora sem enlouquecer porque,
como todos nós fazemos, ignoro o que sei que acontece:
aquela besta que vive em todos nós e se revela 
periodicamente por pátria, riquezas, raças, credos, 
políticas e certezas de ganhos maiores do que conseguimos
conceber. Tenho 29 anos e sei, há muito, que há mortos
que valem mais que outros, que há pessoas que valem
mais do que outras, que há gente que merece mais 
que outras - e esta forma de racismo, esta forma de 
eugenia económica,
é, cada vez mais, uma parte maior do nosso pensamento:
é com isto que os políticos nos convencem da necessidade
do sacrifício, da igualdade do sacrifício, da salvação 
pelo sacrificio, de que todos somos sacrificados 
a mando de um deus invisível, de voz forte, e que só a fé
no crescimento exponencial nos poderá manter vivos
para respirar mais um pouco, 
comer mais um pouco,
comprar mais coisas para continuar a esquecer que só 
estamos vivos e felizes porque tivemos a sorte de nascer
no sítio certo, na sociedade certa, com a quantia certa
para encontrar um caminho e termos algum valor…
chamam-lhe civilização. Entretanto, continuam a fazer
as guerras certas, a apoiar as facções correctas, a matar
nos sítios certos as pessoas certas que nasceram para isso:
para encher os nossos telejornais com a sua dor 
para nos fazerem sentir bem, para acharmos que somos 
afortunados, para pensarmos que a nossa sorte poderia ser
pior se tivéssemos nascido ali. Vendo bem, nem são pessoas:
são apenas imagens em movimento, produtos da apatia
dos nossos sentidos umbilicais. Dizem agora que deveríamos 
estar orgulhosos dos acordos que lavram em nosso nome,
das "oportunidades de negócio" que se podem encontrar
num mundo rasgado ao meio, num mundo que se tenta
reencontrar em si próprio e que não sabe para onde olhar,
num mundo onde finalmente se abriu o jogo e se concentra
a riqueza nas mãos de quem interessa, no mundo corporativo,
árido, digital, bits e bytes de dinheiro, números despenhados
do monitor para o pânico, para a conta, para o medo,
para a ignorância de não ter uma vida para além daquela 
que a nossa ignorância nos permite sonhar, perfeita, única,
com um valor igual à das pessoas que nunca se concretizaram.

20 setembro 2011

Exercício 3: respirar


lembra-te: são dois os gestos que precisas
para continuar vivo. primordiais de tão simples,
emanam do mais profundo do teu cérebro
como um eco dos primeiros gestos da tua 
espécie. encher e esvaziar. encher e esvaziar...
deixar que os ritmos obscuros dos teus sentimentos
os controlem por vezes, sem teres peito para 
suster o ar do suspiro; sem ter força para os encher
quando o mundo cai sobre ti. quando os pensas, 
parecem tornar-se noutra coisa, mais difíceis, 
como se de fora visses os processos internos 
que te controlam: a confusão que trazes escondida,
a dúvida que respirar mantém acordada em ti,
a alegria e a excitação dos olhos abertos, do mundo
que se vê e se pode tocar… e o não-saber, nunca,
mesmo debaixo da cortina da rotina, o que o dia
após este pode trazer. encher e esvaziar, encher
e esvaziar, encher e esvaziar, encher e esvaziar...

Exercício 2: apaixonar


gostava de me apaixonar, mas já não sei 
como é que isso se faz. como se acredita,
como nos deixamos ir em águas cujo fundo
não vemos. como amar as horas de outro?

gostava de me apaixonar, mas já não sei
falar outra língua que não a minha
- e ninguém para explicar o que é isto
que se sente enquanto se respira e pensa.

19 setembro 2011

Exercício 1: acreditar


acreditar é comprometer-me,
perder um pouco mais de liberdade,
reduzir o meu campo de acção,
reorganizar os ponteiros do relógio
pelas horas de outros. 

acreditar é fechar-me em casa,
fechar-me em mim,
fechar-me atrás da câmara, 
fechar-me atrás do computador, 
fechar as minhas mãos
à volta da câmara para o mundo.

acreditar é não ceder, perseguir
- mesmo que seja contra todas
as expectativas e sensatez. 

acreditar é fazer 48 das 24 horas
do dia. acreditar é fazer e fazer
e fazer e fazer e perder e perder
e continuar a acreditar. acreditar
é acreditar, olhos fechados
para o significado real das coisas.

acreditar é acreditar por acreditar,
porque se sente e sabe o que importa.

acreditar é esquecer tudo 
o que se podia estar a fazer 
caso não se acreditasse. 

acreditar é jogar contra probabilidades,
gente, dinheiro, sorte, mundo, merda!
acreditar é uma litania sem sentido!
acreditar faz cair o cabelo!
acreditar é tudo o que nos deixam ter
e tudo o que de mais importante nos tiram!
acreditar é não acreditar nos anúncios,
esquecer o crédito, esquecer os sonhos
plásticos que se podem comprar nas lojas! 
acreditar é ter objectivos que não se encontram
à venda ao público! acreditar é uma coisa 
que não se pode enviar por bluetooth ou e-mail!

acreditar é uma coisa pessoal! acreditar é próprio!
acreditar é solitário! acreditar é triste! acreditar é 
permanecer incompleto, insatisfeito, transitório,
uma mera ligação entre ser e encontrar um significado
para o estar vivo, dia após dia, sem mais artifício.

14 setembro 2011

O insecto


Sinto o insecto a crescer no peito. 
Sobre e dentro da pele.
Alimenta-se de mim. 
Já não sei mais se respiro ou se é ele
que sopra o ar pela minha boca, pelo meu nariz, 
no ritmo 
da inconsciência dos gestos automáticos. 
Não consigo comer.
Não consigo dormir. 
Não consigo 
abraçar ninguém com estes braços
de quitina. Tenho como companhia a tábua-rasa 
da sombra. Ninguém confia num homem 
com um besouro dentro, que cheira a coisas 
mastigadas e a saliva; com ruídos
dentro, com o esgar de dor ocasional 
quando as mandíbulas interiores 
atingem algo
- que não o tecido mole que levamos dentro.

06 setembro 2011

Os artistas


faço parte dessa raça de cobardes que levam os sonhos
às costas. os artistas, com fama ou não, são criaturas 
desprezíveis: comem o seu peso em papel e carne
e vomitam sobre os sapatos das pessoas respeitáveis
e trabalhadoras o tédio das suas observações. plantam-se
às janelas de restaurantes chiques na baixa pensando 
como seria comer ali, muito, caro e bem, e depois, durante 
o cigarro, soltar gases discretos entre as pessoas de bem
- e esperar que estes não sejam excessivamente ruidosos.
cheiram mal, suam e alimentam-se apenas de sopas roubadas
aos pobres porque, deles, dos artistas, emana a riqueza 
intelectual, a única verdadeira e apressadamente fodida no cu
em qualquer banco de jardim fora do olhar próximo.
para além disto, usam óculos (eu não, mas devia), mas
agora que eles estão na moda deixaram de usar; 
trocaram-nos por um telemóvel com bloco de notas, 
câmara fotográfica 5 mpx, internet para procurar palavras
e conceitos perdidos e enxovalhados na algibeira do tempo
- e aplicações, mais e outras, para a sua imensa inutilidade 
e falta de talento. os sonhos são coisas belas, mas chega 
o dia em que é impossível não acordar, não sentir os dentes
do tempo mordendo os calcanhares como um cão vadio
e raivoso; em que é impossível não experimentar na carne
o fracasso e o erro e a tentativa e o erro e a tentativa 
da tentativa do último erro que nunca se pôde cometer; 
em que é impossível não sentir fome e ter o bolso vazio
e ter de voltar sempre e sempre ao mesmo momento, 
às mesmas mãos estendidas, às mesmas oportunidades
repetidas, a compreensão do sangue e a sua eterna paciência.
os artistas com dinheiro, esses, também fazem tudo isto,
mas de formas absurdamente mais discretas e rentáveis.