Tenho 29 anos e debaixo dos meus pés e ignorância
já atropelei genocídios e guerras e mortes e violência
e fomes e várias e diferentes pestes e incontáveis mortes
que contam para a forma como a riqueza se distribui,
sempre pelas mesmas mãos, sempre da mesma forma
hemisférica. Nisto, a economia contraria a gravidade:
a riqueza sobe. Mas dizia: tenho 29 anos e só consegui
estar vivo até agora sem enlouquecer porque,
como todos nós fazemos, ignoro o que sei que acontece:
aquela besta que vive em todos nós e se revela
periodicamente por pátria, riquezas, raças, credos,
políticas e certezas de ganhos maiores do que conseguimos
conceber. Tenho 29 anos e sei, há muito, que há mortos
que valem mais que outros, que há pessoas que valem
mais do que outras, que há gente que merece mais
que outras - e esta forma de racismo, esta forma de
eugenia económica,
é, cada vez mais, uma parte maior do nosso pensamento:
é com isto que os políticos nos convencem da necessidade
do sacrifício, da igualdade do sacrifício, da salvação
pelo sacrificio, de que todos somos sacrificados
a mando de um deus invisível, de voz forte, e que só a fé
no crescimento exponencial nos poderá manter vivos
para respirar mais um pouco,
comer mais um pouco,
comprar mais coisas para continuar a esquecer que só
estamos vivos e felizes porque tivemos a sorte de nascer
no sítio certo, na sociedade certa, com a quantia certa
para encontrar um caminho e termos algum valor…
chamam-lhe civilização. Entretanto, continuam a fazer
as guerras certas, a apoiar as facções correctas, a matar
nos sítios certos as pessoas certas que nasceram para isso:
para encher os nossos telejornais com a sua dor
para nos fazerem sentir bem, para acharmos que somos
afortunados, para pensarmos que a nossa sorte poderia ser
pior se tivéssemos nascido ali. Vendo bem, nem são pessoas:
são apenas imagens em movimento, produtos da apatia
dos nossos sentidos umbilicais. Dizem agora que deveríamos
estar orgulhosos dos acordos que lavram em nosso nome,
das "oportunidades de negócio" que se podem encontrar
num mundo rasgado ao meio, num mundo que se tenta
reencontrar em si próprio e que não sabe para onde olhar,
num mundo onde finalmente se abriu o jogo e se concentra
a riqueza nas mãos de quem interessa, no mundo corporativo,
árido, digital, bits e bytes de dinheiro, números despenhados
do monitor para o pânico, para a conta, para o medo,
para a ignorância de não ter uma vida para além daquela
que a nossa ignorância nos permite sonhar, perfeita, única,
com um valor igual à das pessoas que nunca se concretizaram.