12 outubro 2011

Não te sei


Não te sei dizer o porquê, mas já não consigo
ter um orgasmo contigo. Não sei se será o hábito
do corpo, teu e meu, ou se isto é causado pela falta
de desejo que sinto por mim mesmo. repara, eu
não sou algo que aconselhe a quem quer que seja.
Sei quem és, o que fazes e para que me queres 
aqui,
agora,
longe de qualquer futuro, neste presente inconsequente
para qualquer entendimento dos corpos.
Sei que apenas me queres foder, exercer controlo 
sobre mim e sobre o meu desejo feito corpo, feito sangue,
e não sei como nomear exactamente isto, o que acontece...
Sei que não me vais ligar amanhã, se calhar nem no dia
seguinte a esse, para nos reencontrarmos: estas horas
pertencem aos corpos e as provas ténues que ficaram 
foram os cheiros nos dedos e as erosões seminais na pele. 
Sais de mim, sal e terra, como entraste - um rasgão superficial,
umas horas perdidas, um outro sinónimo do prazer descarnado.
Paixão, amor ou qualquer coisa intermédia ou nem isso: 
gostava de te perguntar, mulher que conheceu muito mais
do que os rigores e a força do meu corpo. mas não pergunto,
porque sei (e sei que sabes também) que nos conhecemos
demasiado bem para nos apaixonarmos por ilusões 
e demasiado mal para nos amarmos. É uma relação feita 
de silêncios, de gestos e gemidos, de palavras por dizer
no cansaço da corrida. Agora dorme… Estás cansada,
eu sei,
de tudo isto.


'09

Exercício 7 - continuar


é simples e fácil. basta ser. fazer. acreditar que respirar
é importante e valioso. assim se continua. mesmo quando
se anda em círculos com a ilusão de que se avança. mesmo
quando se sabe até à medula dos ossos que continuar,
prosseguir, avançar, é como uma amputação: lima-se 
a gangrena, mas permanece a dor, a ilusão do membro 
perdido. e como se torna mais difícil o equilíbrio! mas sim,
fazer! fazer tanto que esqueces como se vive enquanto
respiras e pestanejas os olhos como quem não acredita
na vida que tem. fazer tanto que perdes as ilusões e sonhos, 
em que passas os dias a desistir em nome de uma vitória
que nunca vai chegar e, quando chega, nunca é suficiente.
em frente! sem olhar, em frente! o abismo, em frente! 
quanto precisamos para ser felizes? tudo o que preciso 
mesmo cabe dentro de uma mochila - tudo o mais trago
no peito, junto com o orgulho de ser quem sou e como sou.
isto inclui: a teimosia e a imensa estupidez; o mote
"antes quebrar que torcer"; o perfeccionismo; a vontade
e a força de ser; não saber como abdicar dos sonhos
em nome de uma conta bancária melhor e mais estável;
o ódio visceral a tudo o que é político; a honestidade
intrínseca da minha classe e educação; olhar com força
e querer ainda com mais e mais força; o ombro amigo
que me esforço por ter; a imensa paciência para tentar 
compreender e ser um animal bom. por isso avançamos,
avanço e continuo com todo o peso do meu mundo dentro,
a uma velocidade constante definida pela orientação 
espacial dos planetas… continuo a arrastar-me lento
demais para o mundo em que vivo. faço sempre mais,
mas não sei se conseguiria existir manco como estou. 
continuar é andar sempre em direcção ao que não se sabe.

O porco chauvinista estético


o porco chauvinista estético é um conceito 
menos contraditório do que se pensa. 
é mais uma questão em aberto, existente
nos subjectivos olhos de quem vê. 
mas é relativamente simples: todos nós
(os homens, os outros, os estranhos, os simples, 
aqueles que amam e os que não amam e aqueles
que se tentam separar da metade feminina desde o início 
de que nos lembramos) o somos, poucos parecem.
mas este exercício de parecenças está mais nos olhos
de quem observa. aqueles que olham, os de dentro
da acção de olhar, quem é visto, o porco chauvinista
portanto, permanecem ignorantes ao que são 
- falta-lhes um espelho para a compreensão. 
assim sendo, todos nós, e ninguém também, o somos
sempre que olhamos quem desejamos com 
a ardência nos rins, com a ausência de matéria
no ventre, com as palavras mal-colocadas, 
desniveladas, da lubricidade, quem não quer ser
assim olhado por nós. uma figura de acção sexual,
um boneco de prazer que se julga inanimado
quando o que se tenta, com maior ou menor educação,
é contar o desejo, explicar a atracção e a forma 
como todas as formas naturais se encaixam 
(e também a suavidade da pele, o calor dos músculos, 
a solidez salutar de toda a equação matemática da beleza).
como tento dizer desde o início, as palavras mentem 
e as acções não: o porco chauvinista estético é
um conceito contraditório, mas tudo o que fazem não.
não há olhar a que isto consiga escapar impunemente.


(depois de algumas conversas)

09 outubro 2011

Exercício 6 - recear


apresento-me: existo e tenho medo. desconheço
este mundo que me rodeia e duvido que algo bom
possa acontecer na culpa que transporto. 
já disse que tenho medo? demasiado para apreciar
o que possuo? já disse também que me agarro 
ao que não tenho? que pressinto que tudo definha
à minha volta? que tenho dentes que me mordem 
os tornozelos, o sono… que me vincam o olhar
para eu não ver a beleza infinita da dádiva possível
nos dias que ainda nos permitem. e a culpa, tanta,
latente sob a máscara snob da minha depressão.
as minhas mãos matam tudo o que tocam. sou assim:
azarada, desastrada, um deserto de sal para o amor.
entende, por favor, que o que o mundo é, depende 
de quem somos, do que vemos; e o toque de midas 
que tanto procuras, a alquimia que conduz do chumbo
ao ouro, da carne simples ao amor, é uma transfiguração
possível, mas asfixia a vida e traz uma riqueza dúbia, 
indecisões concretas, uma infinita tristeza da largura
de um abraço que é sempre o primeiro passo do adeus.

29 setembro 2011

Exercício 5 - perder


já sabia as regras quando comecei sem noção 
o que efectivamente seria aplicado. que leis
ou ordens seriam as que teria de cumprir. 
estamos todos limitados ao mesmo: agir, reagir,
apostar, perder. faz tudo parte do jogo, do sistema.
sem dar conta, vou perdendo o controlo que sabia
exercer na minha vida, na imposição da minha vontade,
o rumo que tinha imprimido à força de mãos e suor.
agora estou perdido no meu espaço, centrifugo,
sem compreender nada, sem encontrar sentido 
nas palavras mais simples, em gestos normais.
mesmo agora enquanto alinho estas letras, 
luto contra o sentido escondido que quero nelas,
luto contra o que quero dizer de mim e não sei
encontrar. perder. o quê, mais? amigos dizem-me
que devia encontrar um ponto positivo em tudo isto,
que estes ciclos negros são etapas que se cumprem
e que depois de tempestades chega sempre a bonança
- e porque penso sempre em chapéus de cowboy
e em longas tardes a preto-e-branco, cactos e tudo?
quanto tempo demoram estes dias? longos, demasiado
cheios de nada e, lugar comum do pó, clichés enormes,
longas, longas tardes em que se luta por encontrar algo 
que preencha as imensas horas do tédio. e o plano,
sempre o plano por cumprir, a perda de tempo plano,
inteiro, contra as engrenagens da sorte, da circunstância.
perder mais dinheiro também, porque qualquer jogo 
exige apostas - e quanto mais quiseres ganhar,
mais terás de perder, de apostar, de perder, apostar
deixando de ser, sendo um peão da sorte, sendo a mão
que faz agarrar o destino que se faz, que lento se constrói. 
já não sei o que fazer mais, mas continuo a fazer algo.
quando não se tem mais nada a perder, o caminho é um,
em frente, em busca do momento circunstancial 
em que tudo fará sentido - para apenas se perder novamente.

22 setembro 2011

Exercício 4: ignorar


Tenho 29 anos e debaixo dos meus pés e ignorância
já atropelei genocídios e guerras e mortes e violência 
e fomes e várias e diferentes pestes e incontáveis mortes
que contam para a forma como a riqueza se distribui, 
sempre pelas mesmas mãos, sempre da mesma forma
hemisférica. Nisto, a economia contraria a gravidade: 
a riqueza sobe. Mas dizia: tenho 29 anos e só consegui
estar vivo até agora sem enlouquecer porque,
como todos nós fazemos, ignoro o que sei que acontece:
aquela besta que vive em todos nós e se revela 
periodicamente por pátria, riquezas, raças, credos, 
políticas e certezas de ganhos maiores do que conseguimos
conceber. Tenho 29 anos e sei, há muito, que há mortos
que valem mais que outros, que há pessoas que valem
mais do que outras, que há gente que merece mais 
que outras - e esta forma de racismo, esta forma de 
eugenia económica,
é, cada vez mais, uma parte maior do nosso pensamento:
é com isto que os políticos nos convencem da necessidade
do sacrifício, da igualdade do sacrifício, da salvação 
pelo sacrificio, de que todos somos sacrificados 
a mando de um deus invisível, de voz forte, e que só a fé
no crescimento exponencial nos poderá manter vivos
para respirar mais um pouco, 
comer mais um pouco,
comprar mais coisas para continuar a esquecer que só 
estamos vivos e felizes porque tivemos a sorte de nascer
no sítio certo, na sociedade certa, com a quantia certa
para encontrar um caminho e termos algum valor…
chamam-lhe civilização. Entretanto, continuam a fazer
as guerras certas, a apoiar as facções correctas, a matar
nos sítios certos as pessoas certas que nasceram para isso:
para encher os nossos telejornais com a sua dor 
para nos fazerem sentir bem, para acharmos que somos 
afortunados, para pensarmos que a nossa sorte poderia ser
pior se tivéssemos nascido ali. Vendo bem, nem são pessoas:
são apenas imagens em movimento, produtos da apatia
dos nossos sentidos umbilicais. Dizem agora que deveríamos 
estar orgulhosos dos acordos que lavram em nosso nome,
das "oportunidades de negócio" que se podem encontrar
num mundo rasgado ao meio, num mundo que se tenta
reencontrar em si próprio e que não sabe para onde olhar,
num mundo onde finalmente se abriu o jogo e se concentra
a riqueza nas mãos de quem interessa, no mundo corporativo,
árido, digital, bits e bytes de dinheiro, números despenhados
do monitor para o pânico, para a conta, para o medo,
para a ignorância de não ter uma vida para além daquela 
que a nossa ignorância nos permite sonhar, perfeita, única,
com um valor igual à das pessoas que nunca se concretizaram.