18 novembro 2011

Dizer amor


digo que a amo só para saber se ainda sou capaz
de o dizer, de sentir esta palavra com força.
espero que as palavras despertem o que já não sei. 
digo que a amo e ela não escuta, não sabe o que é 
nem para que serve. digo que a amo para passar 
o tempo, para despertar o sexo e o calor. digo 
que a amo para a tentar despertar, para a humanizar
no meio da minha desumanidade. digo que a amo
e ela não me responde nada. silêncio. geme. apenas.
mentimos ambos. eu com palavras. ela com o corpo.
eu com o corpo das palavras sem corpo. sendo eu.
mentimos ambos sem saber mais para onde ir,
o que dizer ou fazer. somos. existimos. somos sós
e nós, aqueles que somos sem a música das estrelas,
sem a graça do corpo debaixo da lua nua. dizemos
ambos o mesmo de forma diferente: estamos sós 
e temos medo do frio da cama a trincar a nossa pele.

15 novembro 2011

Poema para além da modernidade

Das ruas sobe um clamor insuspeito, das esquinas
de onde se descosem os corpos, dos paralelos sujos,
das bocas abertas para a chuva, das mãos porcas
com que nos tocam. Todas esta vozes dizem
uma só coisa a uma só voz:

ESTAMOS A CAGAR-NOS PARA TODOS!

Somos pequenos egoístas pequenos que não sabemos
existir; somos grandes e umbilicais como a publicidade
nos ensinou a ser; somos estúpidos e gostamos dos estúpidos
porque receamos tudo o que desconhecemos; temos coisas,
não precisamos de ser. A televisão e a internet guiam-nos
os gostos, o que dizemos, o que pensamos e quando o fazemos.
A economia é a nossa religião: não a compreendemos, mas temos fé.
E quando nos caírem todos os dentes e deixarmos de ser úteis,
quando acordarmos de todos os dias para nos tornarmos pó,
a boca cheia de merda não nos deixará falar uma única palavra
- seremos velhos, pobres e não teremos  nada, mais nada,
nenhuma coisa para dizer para dar significado a termos sido
entre cafés chungas, restaurantes manhosos, férias estúpidas
em hotéis que apenas confirmam o nosso egoísmo e medo,
dia-a-dia vivendo cada vez menos, comprando cada vez menos,
sabendo cada vez menos do que somos e do que é viver.

01 novembro 2011

Aquário de medo


como certamente sabes, comunicar é impossível sem palavras, 
excepto quando se dá palavra à linguagem silenciosa do corpo. 
mas no silêncio ele acaba por pronunciar a língua viperina 
da carne, esperando que daí, da redonda ausência, algo mais 
eloquente acorde e se forme. procuro ainda novas formas 
para te dizer algo diferente, mas continuo preso a estas 
que nos ensinaram e que não contam as horas acordado, 
as fotos repisadas pelos olhos, o trabalho sem fim para manter
as paredes do mundo fortes, capazes. ainda hoje, acordo 
mais vezes sozinho, mais vezes do que alguma vez acordamos 
juntos, corpo silencioso em corpo silencioso na eloquência
das manhãs sós e do café quente. e como já ninguém faz,
o parolo romântico, as horas perdidas a reler maus poemas 
escritos quando te conheci, cheios de um homem melhor
(quem sabe?) e de uma mulher que só existia na minha mente; 
as fotos com dois que já não são e talvez nunca tenham sido
mais nada fora daquelas páginas e circunstâncias.
de que vale isto hoje? menos que nada e horas estranhas.
e de nada se fazem as formas da memória, 
e de horas também, 
sempre as mesmas coisas velhas e gastas pelo uso, 
como aquela roupa confortável que se veste quando
não se espera mais ninguém em casa. assim se fica,
entrecortadas por anos, como tem de ser; esquecido
em cima de uma cadeira qualquer num quarto vazio,
fora do que se sabe, do que se conheceu e morreu, 
como morre sempre, como morrerá sempre, no espaço
vazio que cresce selvagem entre duas pessoas quando
a única vida que se conhece é a de um aquário de medo,
de onde olhamos de dentro para fora sem nunca nos ver.
comunicar precisa de dois, não de um espelho embaciado.
a mensagem só precisa dos olhos certos para a ler, sabes? 
de resto, por si só, como quase tudo, não vale nada. 

17 outubro 2011



uma das músicas mais belas que ouvi. sempre.

Partes de mim

Na realidade sou apenas um romântico desiludido com o mundo e com as pessoas. Parte de mim, pelo menos, é assim. A outra não se importa muito e continua sem pensar muito nas coisas. Ambas não querem acreditar mais e preferem manter-se assim, indisponíveis. Sinceramente, e do que vi e experimentei até agora, a disponibilidade é uma coisa muito interessante que serve para reduzir a nossa produtividade e para nos roubar as horas. Mata a solidão por umas horas, mas pouco mais. Assim sendo, continuo a ser o mesmo romântico desiludido com o mundo e com as pessoas. Sem beleza nem poesia. As coisas parecem mais duras ditas em prosa, mas é uma ilusão do nosso entendimento. Afinal de contas, são apenas as mesmas palavras alinhadas e gastas. Ninguém entende. Elas, as palavras, significam o mesmo de formas diferentes. Dependem das pessoas que as dizem. Se forem escritas parecem mais sérias, mas são igualmente risíveis e insignificantes. Confusas, principalmente. Hoje passei demasiadas horas em frente ao computador. Ontem uma manifestação, tão inocente que chegou a ser bela - não fosse a desilusão um cancro que nos consumia a todos por dentro. Descendo a avenida passava-se uma fronteira invisível entre dois mundos necessariamente contrários. O dos contestatários, o mundo em crise, e o mundo real, das esplanadas cheias e da praxe dos estudantes que se alimentam de MacDonalds, engordando como animais passivos e com um plano. Ambas as partes de mim ficaram desiludidas. Com o mundo real e o mundo contestatário, ambos enfrentados de câmara na mão - e são as mesmas caras que se escondem por detrás das mãos, dos óculos de marca. Acontece-me o mesmo quando sou sincero. Quando tento falar ao coração das mulheres, as portas fecham-se. Excepto quando tento ser quem não sou. Excepto quando os bolsos estão cheios de dinheiro ou paciência (ainda estou para decidir que qualidade é a mais importante). Ainda assim, permaneço romântico e desiludido com o mundo e com as pessoas. É assim que sou e só consigo enganar quem quer ser enganado pelo tempo disponível para o engano. Para terminar, gostaria de dizer que odeio o Paulo Coelho e todas as palavras que ele escreveu e virá a imaginar. É demasiado cruel da parte dele reduzir o mundo todo e toda a gente no mundo a crianças que precisam de metafísica moulinex para sobreviver. E depois de todas estas palavras incertas, rudes na sua prosa, incertas na certeza de definir algo, permaneço romântico, desiludido com o mundo e com as pessoas, mas procuro não pensar muito nisso.


P.S. - Para além do Paulo Coelho, odeio também o Pedro Passos Coelho de uma forma que o reduz apenas a mais um número, a mais um político que vende a carne dos ossos, as gerações presentes e futuras, a uma oligarquia. Infelizmente, não foi o primeiro.

12 outubro 2011

Não te sei


Não te sei dizer o porquê, mas já não consigo
ter um orgasmo contigo. Não sei se será o hábito
do corpo, teu e meu, ou se isto é causado pela falta
de desejo que sinto por mim mesmo. repara, eu
não sou algo que aconselhe a quem quer que seja.
Sei quem és, o que fazes e para que me queres 
aqui,
agora,
longe de qualquer futuro, neste presente inconsequente
para qualquer entendimento dos corpos.
Sei que apenas me queres foder, exercer controlo 
sobre mim e sobre o meu desejo feito corpo, feito sangue,
e não sei como nomear exactamente isto, o que acontece...
Sei que não me vais ligar amanhã, se calhar nem no dia
seguinte a esse, para nos reencontrarmos: estas horas
pertencem aos corpos e as provas ténues que ficaram 
foram os cheiros nos dedos e as erosões seminais na pele. 
Sais de mim, sal e terra, como entraste - um rasgão superficial,
umas horas perdidas, um outro sinónimo do prazer descarnado.
Paixão, amor ou qualquer coisa intermédia ou nem isso: 
gostava de te perguntar, mulher que conheceu muito mais
do que os rigores e a força do meu corpo. mas não pergunto,
porque sei (e sei que sabes também) que nos conhecemos
demasiado bem para nos apaixonarmos por ilusões 
e demasiado mal para nos amarmos. É uma relação feita 
de silêncios, de gestos e gemidos, de palavras por dizer
no cansaço da corrida. Agora dorme… Estás cansada,
eu sei,
de tudo isto.


'09