como certamente sabes, comunicar é impossível sem palavras,
excepto quando se dá palavra à linguagem silenciosa do corpo.
mas no silêncio ele acaba por pronunciar a língua viperina
da carne, esperando que daí, da redonda ausência, algo mais
eloquente acorde e se forme. procuro ainda novas formas
para te dizer algo diferente, mas continuo preso a estas
que nos ensinaram e que não contam as horas acordado,
as fotos repisadas pelos olhos, o trabalho sem fim para manter
as paredes do mundo fortes, capazes. ainda hoje, acordo
mais vezes sozinho, mais vezes do que alguma vez acordamos
juntos, corpo silencioso em corpo silencioso na eloquência
das manhãs sós e do café quente. e como já ninguém faz,
o parolo romântico, as horas perdidas a reler maus poemas
escritos quando te conheci, cheios de um homem melhor
(quem sabe?) e de uma mulher que só existia na minha mente;
as fotos com dois que já não são e talvez nunca tenham sido
mais nada fora daquelas páginas e circunstâncias.
de que vale isto hoje? menos que nada e horas estranhas.
e de nada se fazem as formas da memória,
e de horas também,
sempre as mesmas coisas velhas e gastas pelo uso,
como aquela roupa confortável que se veste quando
não se espera mais ninguém em casa. assim se fica,
entrecortadas por anos, como tem de ser; esquecido
em cima de uma cadeira qualquer num quarto vazio,
fora do que se sabe, do que se conheceu e morreu,
como morre sempre, como morrerá sempre, no espaço
vazio que cresce selvagem entre duas pessoas quando
a única vida que se conhece é a de um aquário de medo,
de onde olhamos de dentro para fora sem nunca nos ver.
comunicar precisa de dois, não de um espelho embaciado.
a mensagem só precisa dos olhos certos para a ler, sabes?
de resto, por si só, como quase tudo, não vale nada.