24 novembro 2011

O quarto


já vi lá morrer duas gerações inteiras. a primeira
aos seis anos, o meu pai a sair do quarto amarelo
e mal iluminado de lágrimas nos olhos, cheiro mau
a coisas feias que nos saem do corpo e enchem
o ar de toda a casa. compreendi a alteração das rotinas,
o desaparecimento daquela pessoa a quem fazia 
carrancas e dizia palavras feias sem significado 
na minha pequena boca. acho que me disseram algo
o teu avô morreu e a morte é como uma viagem. 
não precisas de ter medo porque as pessoas de quem 
gostas estão sempre perto de nós. algo assim, pelo menos.
a segunda, lenta a entrar na morte, perdida no tempo 
e no espaço, na leitura das pessoas, com um único amor 
pelos animais de quem não temia nem os dentes.
perguntava-me muitas vezes quando eu chegava cego
a casa: como estava a micas dona? e dizia-me também,
muitas vezes, chorando, que não tinha bilhete, mas tinha de ir 
para casa, para outro lado qualquer que só ela via.
e depois obrigá-la a tomar os remédios enquanto gritava
vocês querem matar-me! isto é veneno! eu sei o que querem:
o meu dinheiro!!! aquela ali, e apontava para a minha mãe,
quer-me matar com esta comida. eu nem sei de quem és
filho, e falava de mim, ódio profundo nos olhos e nas sílabas. 
estávamos muito longe já do tempo em que me ensinou 
a escrever, em que me lia histórias antes de dormir 
e me dizia, do alto da sua quarta classe feita com distinção,
que os livros e o conhecimento são coisas que nos permitem 
crescer e ser melhores. irónico como acabou por se esquecer 
de tudo, quem era, o que tinha tido, quem tinha sido toda a vida.
e agora há outro a navegar naqueles lençóis, perdendo 
todas as forças do trabalho duro, ficando mais frágil 
do que todos os quilómetros de vidro que assentou,
com as mãos e o jeito a perder a rudeza ígnea das rochas,
no mesmo quarto do sempre, do mesmo jeito, com medo do frio 
que dantes abraçava às 6h00 da manhã, todos os dias,
com um duche quente ou frio e uma navalha afiada 
para a barba. olhar as mesmas paredes, os mesmos retratos 
mudos que lembram a juventude que, uma vez, nos pertenceu,
a mesma luz passando oblíqua pela janela da lucidez, o corpo
a falhar, motor mecânico a acusar o uso, enquanto eu, 
dois andares mais alto, martelo estas letras
e tento não me lembrar disto e do mais que faz parte de mim.

18 novembro 2011

Dizer amor


digo que a amo só para saber se ainda sou capaz
de o dizer, de sentir esta palavra com força.
espero que as palavras despertem o que já não sei. 
digo que a amo e ela não escuta, não sabe o que é 
nem para que serve. digo que a amo para passar 
o tempo, para despertar o sexo e o calor. digo 
que a amo para a tentar despertar, para a humanizar
no meio da minha desumanidade. digo que a amo
e ela não me responde nada. silêncio. geme. apenas.
mentimos ambos. eu com palavras. ela com o corpo.
eu com o corpo das palavras sem corpo. sendo eu.
mentimos ambos sem saber mais para onde ir,
o que dizer ou fazer. somos. existimos. somos sós
e nós, aqueles que somos sem a música das estrelas,
sem a graça do corpo debaixo da lua nua. dizemos
ambos o mesmo de forma diferente: estamos sós 
e temos medo do frio da cama a trincar a nossa pele.

15 novembro 2011

Poema para além da modernidade

Das ruas sobe um clamor insuspeito, das esquinas
de onde se descosem os corpos, dos paralelos sujos,
das bocas abertas para a chuva, das mãos porcas
com que nos tocam. Todas esta vozes dizem
uma só coisa a uma só voz:

ESTAMOS A CAGAR-NOS PARA TODOS!

Somos pequenos egoístas pequenos que não sabemos
existir; somos grandes e umbilicais como a publicidade
nos ensinou a ser; somos estúpidos e gostamos dos estúpidos
porque receamos tudo o que desconhecemos; temos coisas,
não precisamos de ser. A televisão e a internet guiam-nos
os gostos, o que dizemos, o que pensamos e quando o fazemos.
A economia é a nossa religião: não a compreendemos, mas temos fé.
E quando nos caírem todos os dentes e deixarmos de ser úteis,
quando acordarmos de todos os dias para nos tornarmos pó,
a boca cheia de merda não nos deixará falar uma única palavra
- seremos velhos, pobres e não teremos  nada, mais nada,
nenhuma coisa para dizer para dar significado a termos sido
entre cafés chungas, restaurantes manhosos, férias estúpidas
em hotéis que apenas confirmam o nosso egoísmo e medo,
dia-a-dia vivendo cada vez menos, comprando cada vez menos,
sabendo cada vez menos do que somos e do que é viver.

01 novembro 2011

Aquário de medo


como certamente sabes, comunicar é impossível sem palavras, 
excepto quando se dá palavra à linguagem silenciosa do corpo. 
mas no silêncio ele acaba por pronunciar a língua viperina 
da carne, esperando que daí, da redonda ausência, algo mais 
eloquente acorde e se forme. procuro ainda novas formas 
para te dizer algo diferente, mas continuo preso a estas 
que nos ensinaram e que não contam as horas acordado, 
as fotos repisadas pelos olhos, o trabalho sem fim para manter
as paredes do mundo fortes, capazes. ainda hoje, acordo 
mais vezes sozinho, mais vezes do que alguma vez acordamos 
juntos, corpo silencioso em corpo silencioso na eloquência
das manhãs sós e do café quente. e como já ninguém faz,
o parolo romântico, as horas perdidas a reler maus poemas 
escritos quando te conheci, cheios de um homem melhor
(quem sabe?) e de uma mulher que só existia na minha mente; 
as fotos com dois que já não são e talvez nunca tenham sido
mais nada fora daquelas páginas e circunstâncias.
de que vale isto hoje? menos que nada e horas estranhas.
e de nada se fazem as formas da memória, 
e de horas também, 
sempre as mesmas coisas velhas e gastas pelo uso, 
como aquela roupa confortável que se veste quando
não se espera mais ninguém em casa. assim se fica,
entrecortadas por anos, como tem de ser; esquecido
em cima de uma cadeira qualquer num quarto vazio,
fora do que se sabe, do que se conheceu e morreu, 
como morre sempre, como morrerá sempre, no espaço
vazio que cresce selvagem entre duas pessoas quando
a única vida que se conhece é a de um aquário de medo,
de onde olhamos de dentro para fora sem nunca nos ver.
comunicar precisa de dois, não de um espelho embaciado.
a mensagem só precisa dos olhos certos para a ler, sabes? 
de resto, por si só, como quase tudo, não vale nada. 

17 outubro 2011



uma das músicas mais belas que ouvi. sempre.

Partes de mim

Na realidade sou apenas um romântico desiludido com o mundo e com as pessoas. Parte de mim, pelo menos, é assim. A outra não se importa muito e continua sem pensar muito nas coisas. Ambas não querem acreditar mais e preferem manter-se assim, indisponíveis. Sinceramente, e do que vi e experimentei até agora, a disponibilidade é uma coisa muito interessante que serve para reduzir a nossa produtividade e para nos roubar as horas. Mata a solidão por umas horas, mas pouco mais. Assim sendo, continuo a ser o mesmo romântico desiludido com o mundo e com as pessoas. Sem beleza nem poesia. As coisas parecem mais duras ditas em prosa, mas é uma ilusão do nosso entendimento. Afinal de contas, são apenas as mesmas palavras alinhadas e gastas. Ninguém entende. Elas, as palavras, significam o mesmo de formas diferentes. Dependem das pessoas que as dizem. Se forem escritas parecem mais sérias, mas são igualmente risíveis e insignificantes. Confusas, principalmente. Hoje passei demasiadas horas em frente ao computador. Ontem uma manifestação, tão inocente que chegou a ser bela - não fosse a desilusão um cancro que nos consumia a todos por dentro. Descendo a avenida passava-se uma fronteira invisível entre dois mundos necessariamente contrários. O dos contestatários, o mundo em crise, e o mundo real, das esplanadas cheias e da praxe dos estudantes que se alimentam de MacDonalds, engordando como animais passivos e com um plano. Ambas as partes de mim ficaram desiludidas. Com o mundo real e o mundo contestatário, ambos enfrentados de câmara na mão - e são as mesmas caras que se escondem por detrás das mãos, dos óculos de marca. Acontece-me o mesmo quando sou sincero. Quando tento falar ao coração das mulheres, as portas fecham-se. Excepto quando tento ser quem não sou. Excepto quando os bolsos estão cheios de dinheiro ou paciência (ainda estou para decidir que qualidade é a mais importante). Ainda assim, permaneço romântico e desiludido com o mundo e com as pessoas. É assim que sou e só consigo enganar quem quer ser enganado pelo tempo disponível para o engano. Para terminar, gostaria de dizer que odeio o Paulo Coelho e todas as palavras que ele escreveu e virá a imaginar. É demasiado cruel da parte dele reduzir o mundo todo e toda a gente no mundo a crianças que precisam de metafísica moulinex para sobreviver. E depois de todas estas palavras incertas, rudes na sua prosa, incertas na certeza de definir algo, permaneço romântico, desiludido com o mundo e com as pessoas, mas procuro não pensar muito nisso.


P.S. - Para além do Paulo Coelho, odeio também o Pedro Passos Coelho de uma forma que o reduz apenas a mais um número, a mais um político que vende a carne dos ossos, as gerações presentes e futuras, a uma oligarquia. Infelizmente, não foi o primeiro.