18 dezembro 2011

Onde estavas


onde estavas tu quando a torre cinco do aleixo 
veio abaixo, observada do rio pela oligarquia?
onde estavas quando se montou o circo habitual:
a condensação da informação em locais seguros 
e calmos, chuva dissolvente entre o cimento descampado?
onde estavas quando os media desligaram as câmaras
e foram embora sem visitar o interior do bairro, sem ver
as pessoas entregues à raiva, ao controlo plácido
dos polícias mais preocupados em manter uma calma
podre do que em fazer algo? onde estavam quando, 
depois do facto consumado, os deixaram ser 
quem se pensam que eles são, em que os deixaram 
exprimir as frustrações com a violência vã contra grades
e pedras
voadoras 
nas mãos calejadas e inocentes de crianças perdidas,
de pés e sapatilhas nike da feira enlameadas, pontapeando
redes e saltando muros baixos num frenesim incompreensível
e inútil. pressente-se como tudo vai terminar depois dos gritos
e dos choros e das queixas e das entrevistas devidamente 
editadas para rádios e das corridas para as casas para ver 
o que ficou estragado para juntar a uma já longa lista de queixas,
para lavar o gás pimenta dos olhos. é a hora de correr 
para dentro de portas por portas que já foram arrancadas 
há muito; é a hora de correr para dentro dos cheiros e do ar
fétido. é hora de subir as escadas, muitas, ou andar em elevadores
frágeis, demasiado. é hora de olhar pelas janelas as ruínas,
a paisagem indiferente ao longe, agora distante das outras caras
marcadas pelos passos da vida, pelos pontapés das coisas
a que chamam destino. é a hora de se entregar aos seus 
pensamentos e incertezas - e consideram o que é viver ali, 
entre a droga e o lixo e os malucos e os ressacas
e os problemas dos outros e ainda
entre mais gente normal e confusa e sem lugar no estabelecimento
das coisas ordinárias e mundanas, que sofrem cortes e deslocamentos
e evacuamentos e edições falaciosas e ainda assim continuam
a existir depois disso - enquanto a paisagem indiferente os olha
e se considera o preço dos terrenos e o novo aleixo que vai 
brotar magicamente do interior da barriga daquela terra,
mais um bairro para gente de luxo porque os outros podem ser 
empurrados para longe, somados a outros problemas noutros 
locais menos viáveis para o futuro económico da cidade.
onde estavam todos  quando o pó se espalhou pela cidade 
para se juntar ao pó, visto de ar, terra e água e registado 
como facto para sempre? onde estavam quando, queimada
a raiva toda, se começou a reencontrar a rotina das coisas,
o lugar-comum do bairro, as mesmas corridas e coisas
e outras pessoas esperando a chegada dos filhos ao infantário
com os vidros partidos pelas explosões, lamentando as coisas 
que aconteceram esta manhã, rindo-se das paredes 
cor-de-rosa do apartamento de r. no 11º piso, vistas agora nuas
contra a chuva a uns meros 3 metros do chão, finalmente
no topo de algo, quanto mais num seja um monte de ruínas.

08 dezembro 2011

A moral dos poetas


perguntas-me várias vezes o que vejo em ti.
agora respondo: um corpo do desejo, feições 
do prazer, companhia na solidão que tu também
conheces. ignoras-me à anos; enganamo-nos 
ambos em corpos outros noutros desejos,
continuamos, irresistivelmente, presos pela anca.
e o medo, essa outra circunstância, move-nos
em direcção à religião, à moral, à alma eterna
que será julgada hoje e sempre, ámen.
não acredito na alma. não acredito na morte.
são ambas consequências de existir. de ser
no corpo que se tem. não se podem culpar 
os dados jogados pelo acaso do jogo. a alma, 
nome cristão da voz da nossa pele, da abstracção 
que existe em nós; a morte, dispersão enérgica
da energia, das memórias, dos átomos. acredito
sim, muito, no corpo e na razão. de ser e estar 
plenamente onde se está, para onde vai aquilo 
que nos leva a viver. ser completo dura 1/300 
de um segundo ou uma vida inteira e aquilo 
a que os homens chamam de amor não é mais 
do que desejar, desejar tudo o que se pode ter 
- para si. na verdade, há mais verdade no prazer 
e no vinho do que nas palavras manietadas 
pela moral perversa de todos os poetas.

Incapaz


Olho para mim sobre a minha própria mão
enquanto me olho olhando o que vejo. vejo
mal entre a penumbra dos meus olhos. não 
escuto nada. não sei onde estou. há uma luz
pontual sobre mim, isolando-me do negro. 
não consigo dormir e estou de pé, sozinho,
numa sala (?) sem portas ou janelas, 
sem paredes. ouço a minha respiração 
agora. o tempo deixou de existir. 
não sei quem sou. 
estou aqui. agora dentro de água. o mesmo
silêncio, ecos distantes do mundo, flutuo.
enrolo-me sobre mim mesmo para dormir 
e tudo fica vermelho e abro os olhos e abro
os olhos e a realidade não se materializa. 
vazio. deserto. tudo em nada em meu redor.
lentamente, formas. despertam os pânicos.
ninguém à minha volta, mãos gigantes e unhas
que descem sobre mim, que me cortam o ventre
enquanto me agarram e me fazem subir, fora 
de mim, longe de quem sou. e de novo outro
local, agora coberto de insectos, os olhos
a serem comidos e a pele destruída lentamente
por milhares de dentes. nos últimos momentos,
sou outro, novamente no vazio, afundando-me
sozinho em tudo o que desconheço, sem futuro
e com um passado fechado em mim, incapaz.

30 novembro 2011


"assim como o som se dilui no silêncio, a euforia dilui-se na indiferença, e é sempre uma surpresa que os grandes sentimentos possam assim definhar, desaparecer com o tempo".

Susan Sontag, O Amante do Vulcão

24 novembro 2011

O quarto


já vi lá morrer duas gerações inteiras. a primeira
aos seis anos, o meu pai a sair do quarto amarelo
e mal iluminado de lágrimas nos olhos, cheiro mau
a coisas feias que nos saem do corpo e enchem
o ar de toda a casa. compreendi a alteração das rotinas,
o desaparecimento daquela pessoa a quem fazia 
carrancas e dizia palavras feias sem significado 
na minha pequena boca. acho que me disseram algo
o teu avô morreu e a morte é como uma viagem. 
não precisas de ter medo porque as pessoas de quem 
gostas estão sempre perto de nós. algo assim, pelo menos.
a segunda, lenta a entrar na morte, perdida no tempo 
e no espaço, na leitura das pessoas, com um único amor 
pelos animais de quem não temia nem os dentes.
perguntava-me muitas vezes quando eu chegava cego
a casa: como estava a micas dona? e dizia-me também,
muitas vezes, chorando, que não tinha bilhete, mas tinha de ir 
para casa, para outro lado qualquer que só ela via.
e depois obrigá-la a tomar os remédios enquanto gritava
vocês querem matar-me! isto é veneno! eu sei o que querem:
o meu dinheiro!!! aquela ali, e apontava para a minha mãe,
quer-me matar com esta comida. eu nem sei de quem és
filho, e falava de mim, ódio profundo nos olhos e nas sílabas. 
estávamos muito longe já do tempo em que me ensinou 
a escrever, em que me lia histórias antes de dormir 
e me dizia, do alto da sua quarta classe feita com distinção,
que os livros e o conhecimento são coisas que nos permitem 
crescer e ser melhores. irónico como acabou por se esquecer 
de tudo, quem era, o que tinha tido, quem tinha sido toda a vida.
e agora há outro a navegar naqueles lençóis, perdendo 
todas as forças do trabalho duro, ficando mais frágil 
do que todos os quilómetros de vidro que assentou,
com as mãos e o jeito a perder a rudeza ígnea das rochas,
no mesmo quarto do sempre, do mesmo jeito, com medo do frio 
que dantes abraçava às 6h00 da manhã, todos os dias,
com um duche quente ou frio e uma navalha afiada 
para a barba. olhar as mesmas paredes, os mesmos retratos 
mudos que lembram a juventude que, uma vez, nos pertenceu,
a mesma luz passando oblíqua pela janela da lucidez, o corpo
a falhar, motor mecânico a acusar o uso, enquanto eu, 
dois andares mais alto, martelo estas letras
e tento não me lembrar disto e do mais que faz parte de mim.

18 novembro 2011

Dizer amor


digo que a amo só para saber se ainda sou capaz
de o dizer, de sentir esta palavra com força.
espero que as palavras despertem o que já não sei. 
digo que a amo e ela não escuta, não sabe o que é 
nem para que serve. digo que a amo para passar 
o tempo, para despertar o sexo e o calor. digo 
que a amo para a tentar despertar, para a humanizar
no meio da minha desumanidade. digo que a amo
e ela não me responde nada. silêncio. geme. apenas.
mentimos ambos. eu com palavras. ela com o corpo.
eu com o corpo das palavras sem corpo. sendo eu.
mentimos ambos sem saber mais para onde ir,
o que dizer ou fazer. somos. existimos. somos sós
e nós, aqueles que somos sem a música das estrelas,
sem a graça do corpo debaixo da lua nua. dizemos
ambos o mesmo de forma diferente: estamos sós 
e temos medo do frio da cama a trincar a nossa pele.

15 novembro 2011

Poema para além da modernidade

Das ruas sobe um clamor insuspeito, das esquinas
de onde se descosem os corpos, dos paralelos sujos,
das bocas abertas para a chuva, das mãos porcas
com que nos tocam. Todas esta vozes dizem
uma só coisa a uma só voz:

ESTAMOS A CAGAR-NOS PARA TODOS!

Somos pequenos egoístas pequenos que não sabemos
existir; somos grandes e umbilicais como a publicidade
nos ensinou a ser; somos estúpidos e gostamos dos estúpidos
porque receamos tudo o que desconhecemos; temos coisas,
não precisamos de ser. A televisão e a internet guiam-nos
os gostos, o que dizemos, o que pensamos e quando o fazemos.
A economia é a nossa religião: não a compreendemos, mas temos fé.
E quando nos caírem todos os dentes e deixarmos de ser úteis,
quando acordarmos de todos os dias para nos tornarmos pó,
a boca cheia de merda não nos deixará falar uma única palavra
- seremos velhos, pobres e não teremos  nada, mais nada,
nenhuma coisa para dizer para dar significado a termos sido
entre cafés chungas, restaurantes manhosos, férias estúpidas
em hotéis que apenas confirmam o nosso egoísmo e medo,
dia-a-dia vivendo cada vez menos, comprando cada vez menos,
sabendo cada vez menos do que somos e do que é viver.