onde estavas tu quando a torre cinco do aleixo
veio abaixo, observada do rio pela oligarquia?
onde estavas quando se montou o circo habitual:
a condensação da informação em locais seguros
e calmos, chuva dissolvente entre o cimento descampado?
onde estavas quando os media desligaram as câmaras
e foram embora sem visitar o interior do bairro, sem ver
as pessoas entregues à raiva, ao controlo plácido
dos polícias mais preocupados em manter uma calma
podre do que em fazer algo? onde estavam quando,
depois do facto consumado, os deixaram ser
quem se pensam que eles são, em que os deixaram
exprimir as frustrações com a violência vã contra grades
e pedras
voadoras
nas mãos calejadas e inocentes de crianças perdidas,
de pés e sapatilhas nike da feira enlameadas, pontapeando
redes e saltando muros baixos num frenesim incompreensível
e inútil. pressente-se como tudo vai terminar depois dos gritos
e dos choros e das queixas e das entrevistas devidamente
editadas para rádios e das corridas para as casas para ver
o que ficou estragado para juntar a uma já longa lista de queixas,
para lavar o gás pimenta dos olhos. é a hora de correr
para dentro de portas por portas que já foram arrancadas
há muito; é a hora de correr para dentro dos cheiros e do ar
fétido. é hora de subir as escadas, muitas, ou andar em elevadores
frágeis, demasiado. é hora de olhar pelas janelas as ruínas,
a paisagem indiferente ao longe, agora distante das outras caras
marcadas pelos passos da vida, pelos pontapés das coisas
a que chamam destino. é a hora de se entregar aos seus
pensamentos e incertezas - e consideram o que é viver ali,
entre a droga e o lixo e os malucos e os ressacas
e os problemas dos outros e ainda
entre mais gente normal e confusa e sem lugar no estabelecimento
das coisas ordinárias e mundanas, que sofrem cortes e deslocamentos
e evacuamentos e edições falaciosas e ainda assim continuam
a existir depois disso - enquanto a paisagem indiferente os olha
e se considera o preço dos terrenos e o novo aleixo que vai
brotar magicamente do interior da barriga daquela terra,
mais um bairro para gente de luxo porque os outros podem ser
empurrados para longe, somados a outros problemas noutros
locais menos viáveis para o futuro económico da cidade.
onde estavam todos quando o pó se espalhou pela cidade
para se juntar ao pó, visto de ar, terra e água e registado
como facto para sempre? onde estavam quando, queimada
a raiva toda, se começou a reencontrar a rotina das coisas,
o lugar-comum do bairro, as mesmas corridas e coisas
e outras pessoas esperando a chegada dos filhos ao infantário
com os vidros partidos pelas explosões, lamentando as coisas
que aconteceram esta manhã, rindo-se das paredes
cor-de-rosa do apartamento de r. no 11º piso, vistas agora nuas
contra a chuva a uns meros 3 metros do chão, finalmente
no topo de algo, quanto mais num seja um monte de ruínas.