não sei porque ainda insisto em te telefonar.
isso claramente não resolve os meus problemas
e há muito que ultrapassamos as palavras, todas,
que poderíamos dizer um ao outro. falamos, sim,
para fazer crescer a minha irritação e o descrédito
que tenho por ti e por todas as que me tentam encher
os ouvidos com palavras bonitas e nenhuma acção,
nenhum alicerce sobre o que constroem. estou farto
das vossas caras múltiplas, sempre a mesma, sempre
o mesmo sorriso frio e postiço, sempre o mesmo silêncio
comprometido com a própria felicidade, com a rotina
calma de quem tem horas e projectos e uma vida
vazia, oca como as intenções possíveis de ter toda a vida.
trocar e-mails é também uma ponte de silêncio. o dedo
fácil sobre o delete, a seta irónica sobre a cruz
do esqueci-me, sinal lacónico do egoísmo. se ainda
conseguisses falar uma única verdade, o que irias dizer?
mais promessas ocas? mais palavras simpáticas?
escrever-te também não resolveu nada, nunca - e diria
que nunca o fiz bem, os olhos ficavam turvos, olhava-te,
mas não te via como eras, mas sim como te fazia,
uma ilusão de areia, uma miragem colada com saliva,
tudo o que não eras e eu queria que fosses para acreditar,
ainda, mais um pouco só, que o que trago dentro
da minha cabeça é real, que não passei todos estes anos
a criar coisas inúteis, a imaginar pessoas impossíveis,
que estou menos só do que aparento e que sim, consigo
estar plenamente com alguém! mas não, nada disto:
não nasci para o deleite e a felicidade escapa-me
por entre os dedos da consciência que me martela
que devia fazer mais; devia fazer melhor; devia ser outro,
melhor, mais forte, mais corajoso, mais intocado;
que toda a minha vida devia ter sido outro, mas quem?
que devia falar mais e melhor com todos; que devia
fechar os olhos e abrir os braços, confiar, deixar
a morte nas mãos de outra mais uma vez
(quantas vezes mais, ainda, que estou farto desta merda?)
- conselhos tão vazios que apenas me fazem forçar
o meu desaparecimento: estar aqui para quê, já agora?
assim sendo, não me falem, esqueçam-me. não quero
mais ver as vossas caras, os vossos olhos falsos
de quem mede o obstáculo a esmagar. não respondam
que eu também não tentarei comunicar. não compreendam
porque eu também não me vou explicar. não percam
tempo, mais algum, comigo porque já não ocupo
este espaço. parti, fugi - e só quero esquecer o que deixo.
e, para terminar, puta que vos pariu mais o vosso amor.