09 janeiro 2012

Corpo de chuva


partilhamos uma música demasiado breve.
sem dúvida, minha querida, fomos a chuva 
      a que o teu corpo sabia.

Miragem


à pergunta quem sou apenas posso responder:
um intruso. sempre. apenas. sem lugar. um 
aluguer febril de respiração e espaço. penso,
mas não existo. não sei o que é ter vontade.
não me consigo exprimir, chegar às pessoas
que me rodeiam como máscaras estranhas 
que não entendo. são poucos aqueles com 
quem ainda consigo conversar. trocar ideias,
vagas como o mar que se desaba sobre mim.
sou outra vez uma criança e rolo sob as ondas,
confuso nos seixos, maltratado pelas rochas.
agora, nenhuma mão entra na água para agarrar
os meus braços soltos. não consigo flutuar. respiro
pelas mãos, quase que alcanço o sol. nenhum som
e a boca está aberta. o bruaaaaaaaa atroador das
ondas, os carros do outro lado da parede, paralelos,
existência no granito, na matéria negra do petróleo.
ninguém sabe o código, a mensagem é uma miragem.

06 janeiro 2012

Segue o teu caminho


Segue o teu caminho,
faz as tuas férias,
ama as tuas coisas.
O resto são memórias
de mundos alheios.

A realidade palpável
é sempre muito menos
do que desejamos. 
Mesmo nós somos 
muitas vezes menos 
do que queríamos ser.

Suave é estar só. Talvez
encontrar alguém que 
viva os mesmos sonhos 
e tenha a mesma carteira
para os cumprir. Deixar 
a dor sobre mesas e camas
de hotel como um ex-voto
aos deuses abandonados.

Vê a vida ao longe. 
Não te aproximes. 
Ela já não tem nada 
para te dizer. Os deuses 
já não te falam como dantes.

Serenamente, entedia-te
no Olimpo gelado e asséptico
do teu coração cheio de ruínas 
e pedestais caídos. Os deuses
são deuses enquanto não pensam.


(como é mais que óbvio, esta é uma adaptação bastante livre do poema de Ricardo Reis. a ideia era exactamente pegar nesse texto, e no sub-texto, e transformá-lo em algo que fosse representativo de pulsões mais contemporâneas, esvaziando-o do abandono material, da entrega à natureza e da confiança no panteão divino, que alguém ou algo cuida de nós.)

Classificados


Procura-se:

mulher com coração certo, constante. com energia 
para respirar a madrugada. com olhos abertos 
pela mesma insónia. com vontade de procurar
algo mais que o óbvio do mundo IKEA e promoções
de agências de viagens para destinos paradisíacos.
se ainda houver alguém interessado nas coisas simples
contacte o 914072833 para conversa e café numa esplanada.

05 janeiro 2012

Perdidos


quando um dia se abre os olhos e sabemos que nos encontramos
perdidos, a estrada conduz sempre na mesma direcção: 
em frente - por um caminho difícil.

Desculpas ao mundo


o zé responde a tudo como se fosse a gozar
e não sou a única a queixar-me do mesmo. 

desde já as minhas desculpas ao mundo 
por ser o oposto do que aparento. apesar 
daquilo a que chamo vida estar em ruínas, 
tenho muita pouca tristeza em mim e quase 
tudo me dá vontade de rir, porque o mundo
é de uma ironia inultrapassável. deus, para 
mim o acaso, é bem pior que eu. qualquer 
pessoa séria é incapaz de dizer o contrário.
de cara séria, as pessoas esperavam que fosse 
como todos os adultos: responsável, frio, sério
(sempre ou pelo menos quando achassem
conveniente), com vontade de construir algo
que não imagens de nada, imagens condenadas
a desaparecer num vago registo do presente.
para além de ti, minha amiga, gostaria de saber
quem se queixa do humor, do meu humor, 
desta tábua de salvação para os náufragos
da existência, caranguejos do fundo do subúrbio, 
dos significados profundos trocados sem palavras,
capazes de se rir com tudo sem deixar de sentir a dor 
das coisas importantes e, acima de tudo, os únicos
que ainda se lembram que a merda da vida se enfrenta
sozinho, de coração aberto e com um sorriso nos lábios.


(PS- só para que fique assente e compreendido, a minha mãe
e ex-namoradas achavam uma piada flutuante às minhas atitudes, 
mas sempre me compreenderam e respeitaram o suficiente para saber
que sempre me importei com elas.)

Danos colaterais


hoje, alguém dorme ao meu lado. eu escrevo, sentado na escuridão.
é suposto isto significar algo, mas não sei dizer o quê. pressiono 
teclas lisas que murmuram as pausas com que penso, onde tento 
encontrar o fio desta viagem, para onde vou agora. dormir na sala
de minha casa, um sofá emprestado e a cabeça pesada. pulmões
presos de fumo. repiso os mesmos passos de sempre. dias curtos
e demasiadas dores de cabeça, cansaços. como passear assim 
tão pausadamente pelas coisas da vida? passamos os dias 
a olhar mortos a andar à nossa volta. nas ruas, nas televisões, 
à nossa volta com a impressão de que eles  são mais reais 
do que nós, que o calor daquela perna ainda vestida 
junto às minhas costas - ou dessa que vocês afastam do vosso colo
para caminharem até à cozinha, para se afastarem um pouco 
da invisível tenaz que se aperta, como vos ensinaram, na garganta. 
dizem que este é o ano das resoluções, das tensões. o fim-do-mundo
maia. previsões e medos. continuidade. amargo aqui, junto ao atlântico. 
demasiado sal enquanto comemos para afastar a morte. esforços 
sobre-humanos de coração - uma raça enquanto problema cardíaco.
temos falta de ar. esquecemos como respirar. já ninguém sabe como falar. 
o que dizer. confusos entre publicidades sem espaço para sinceridades 
ou enumerações de qualidades. falamos, sim, ainda, para nos escutarmos
a dizer o que dizemos. falamos como expressão do nosso egoísmo, 
dos desejos burgueses dominados à força numa vontade de contra-cultura, 
numa vontade de nos tornarmos iguais a todos os outros por oposição. 
como resolver a vida? pensamos enquanto passeamos por esplanadas
ou países estrangeiros, procurando fugir do que somos realmente:
o emprego anónimo, o sucesso relativo, a monotonia abismal 
de um futuro que se constrói em silêncio, num cubículo de 8 horas, 
de onde depois se pode escapar aperfeiçoando o corpo, aparente,
sem nunca se alterar quem se é por dentro. apenas revelando
quem tentamos esconder sempre debaixo das acções. e depois é isto:
penso em amigos e há línguas que se iluminam como facas; 
penso em amigos e há poemas que se transformam em merda, 
personificações de mim a seus olhos tristes e panucas; 
penso em amigos e recordo noites de bares, abrigos em casa
e palavras de despedida, insinuantes e bífidas, sobre mulheres amadas;
penso em amigos e tenho também uns poucos pontos no mundo 
onde sei que seria recebido com um sorriso, em casa, sem perguntas.  
e entretanto, enquanto faço planos para o futuro, a vida continua 
a acontecer à minha volta. pessoas dormem. pessoas acordam.
mortos apreciam mortos, vivem todos a sua vida calma e plácida
de animais saciados. marcam emigrações sazonais para destinos 
da moda ou para onde os conduz o coração para o romance.   
é este o jarro de vidro de onde espreito para fora, sem intuir a realidade
daquela distorção, sem compreender que ao contrário do que digo, 
os meus olhos e mãos não são a medida para todas as coisas.