enquanto nos entretemos a racionalizar
a dor, os nossos entendimentos separados,
os nossos imensos egoísmos, a vida real
passa-nos ao lado. somos o que somos.
é isto. apenas. com as nossas loucuras
e entregas que não são o que são. são
sempre outra coisa noutros olhos.
queremos o mundo para nós. o nosso
fica sempre nas nossas mãos, nunca
se entrega. a batalha que travamos
nunca é pela compreensão: procuramos
alguém que se renda a nós, que nos
persiga a ilusão da nossa solidão
sem esperar nada em troca. e depois
partimos, sempre, sem mais uma palavra.
a beleza para mim não é nada.
a macro dos meus olhos é um bisturi
com que separo a realidade daquilo
que efectivamente é. pormenores soltos,
sem qualquer relação com o corpo
a que pertencem. uma pele. um lábio.
uns olhos. aquela forma particular de ser.
pessoas cubistas, formadas à imagem
das imagens que projectam, escondidas
atrás dos gestos. o mundo dos meus olhos,
mais completo em cada pormenor, melhor
do que a própria forma como se olham
a si mesmas ao espelho. beleza é uma
palavra. um conceito abstracto. uma coisa
pouco importante que se preza e se perde.
nunca me deram nada. mulheres acomodadas
com quem eu me liguei entregaram o corpo,
meia dúzia de horas, o calor de uma cama
e de meia dúzia de gestos gastos com outros
antes de mim. conversas vazias em que me
contam os amantes, o prazer, o passado inútil,
como foi bom sentir que eles me queriam.
chamam a isto sofisticação. ser moderno.
ver o mundo da perspectiva do umbigo
e chamar-lhe meio-termo. esperar tudo sem
dar nada. chegar ao amor como a uma religião:
rastejando, cheio de humildade, sem sequer
uma lembrança do que foi ter amor-próprio.
esperar. esperar que um dia haja tempo
e vontade para oferecerem o mesmo
que exigem. olho o futuro ao lado de alguém
e vejo uma planície branca. sem fim. nada.